Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Estadão na Antártida, dia 3: O canteiro de obras da nova estação

A nova estação Comandante Ferraz já está com 80% da obra concluída. A construção imponente, construída ao custo de US$ 99,6 milhões, é considerada uma das mais modernas do continente gelado

Luciana Garbin, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2019 | 23h58

3º dia

Módulo Antártico Emergencial - 20/02/2019, 20h

Uma construção imponente, sustentável e moderna de US$ 99,6 milhões será a casa brasileira no continente antártico. Minha primeira visão da nova estação Comandante Ferraz foi pela vigia, uma espécie de janela redonda que divide o espaço do camarote onde estou no navio Ary Rongel com duas treliches, três armários e um banheiro. Vários contêineres coloridos de construção ainda marcam a paisagem, mas mais de 80% da obra já está concluída e a partir de março o canteiro de obras começará a ser desmontado.

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Chegamos até a estação num bote do Ary Rongel, que estava fundeado a alguns metros de distância, na Baía do Almirantado. Pequenos blocos de gelo recepcionam quem desce numa espécie de cais adaptado na praia cheia de pequenas pedras. Alguns passos no barro mais, alcançamos a base que terá sua estrutura física entregue no dia 12, mas só será inaugurada oficialmente a partir de janeiro do ano que vem. Depois de Fernando Collor de Mello (em fevereiro de 1991) e Luiz Inácio Lula da Silva (em fevereiro de 2008), Jair Bolsonaro pode ser o terceiro presidente a visitar a estação no exercício do cargo. Fernando Henrique Cardoso também foi, contam os militares na Antártida, mas como senador. 

Os contêineres que ainda estão diante da nova estação são usados para guardar  principalmente materiais e ferramentas dos chineses. Alguns também são utilizados como moradia pelos funcionários. Hoje ainda havia 255 chineses trabalhando em Ferraz, como a estação é conhecida, mas vários já estão de malas prontas. A maioria deve deixar a estação em 5 de abril. Vão sair em direção à base chilena a bordo do Magnólia, um navio fretado pela empresa China Electronics Imports and Exports Corporation (Ceiec) que hoje dividia a paisagem com o Ary Rongel em frente à estação. Há semanas o Magnólia está ali para dar apoio logístico à construção. Do Aeródromo Tenente Rodolfo Marsh, vão pegar um voo fretado até Punta Arenas e daí seguir para a China. Restarão apenas outros 25, que passarão o inverno fazendo manutenção da estação. Junto com eles, estarão 16 militares brasileiros do Grupo Base, que chegaram em novembro e permanecerão até novembro.

A Ceiec foi escolhida numa concorrência internacional disputada também por uma empresa finlandesa e um consórcio chileno e brasileiro. O responsável pela reconstrução da estação, Geraldo Juaçaba, capitão de mar e guerra da reserva, lembra que o valor de referência da licitação foi de US$ 110 milhões e cada concorrente ofereceu um desconto: o consórcio disse que podia abater US$ 50 mil do preço; os finlandeses, US$ 5 milhões; os chineses, US$ 10 milhões. 

A base é composta por três blocos. O Leste, destinado às pesquisas, serviços e convívio, tem 14 laboratórios, refeitórios, cozinha e setor de saúde. O Oeste, 32 camarotes, biblioteca, ginásio e auditório, além de paiois de mantimento e tanques no nível inferior. No Técnico, garagem, caldeiras, um incinerador apelidado de dragão e estação de tratamento de água e esgoto, entre outras coisas. Há ainda oito aerogeradores de energia e módulos isolados, como os telecomunicações, meteorologia e ozônio, lavagem de sedimentos, mergulho e de resíduos perigosos. 

A construção foi vista pela Marinha também como uma forma de transferência de tecnologia. Tanto que engenheiros brasileiros passaram quase um ano na China supervisionando os preparativos. Todas as fundações do prédio principal, por exemplo, foram pré-montadas em Shangai e trazidas de navio de março a novembro de 2016. No ano seguinte, foram fabricados e pré-montados pilares, estruturas e contêineres.

O engenheiro eletricista e capitão de corveta Daniel Pontes passou temporadas em Pequim, Shangai, Yanghou e Tianjin supervisionando essa primeira parte dos trabalhos e diz que sente um grande orgulho ao ver a construção quase pronta. "Se essa estação não é a mais moderna da Antártida, certamente é uma das mais." A seu lado, o engenheiro mecânico e capitão tenente Christovam Leal Chaves conta que mais de três mil itens foram analisados pela fiscalização.

Depois do trauma do incêndio de 2012, a preocupação com a segurança virou quase uma obsessão. Tudo também foi pensado nos mínimos detalhes para reduzir custos. "Não existe lugar mais caro para construir e manter que a Antártida. Por isso aqui é fundamental pensar na logística para fazer, ocupar, manter e desmontar se depois for necessário", explica a arquiteta e professora universitária Cristina Engel, que ajudou a montar os requisitos para construção da estação. 

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Ela dá alguns exemplos de por que a obra na Antártida exige preparo. Como aqui faz muito frio, foi preciso por exemplo pensar em parafusos maiores, para que os operários não tenham de tirar a luva para usá-los. As escadas de serviço também tiveram de ser planejadas para serem subidas com grossas botas de neve. Os olhos dos trabalhadores também precisam ser mais bem protegidos por causa da grande radiação solar na região. "O Brasil é um país tropical que teve de aprender a construir na Antártida", resume.

Enquanto a obra da estação não termina, os militares e alguns civis brasileiros ocupam o MAE - Módulo Antártico Emergencial -, de onde escrevo neste momento. Feito por uma empresa canadense, ele é uma junção de cerca de 60 contêineres, que formaram uma área de aproximadamente 950 metros quadrados e permitem aos ocupantes uma rotina confortável, com três alas de alojamentos, refeitório, enfermaria, banheiros e academia de ginástica. Foi nele que nós almoçamos, jantamos e para onde corremos algumas vezes ao dia quando o frio de quatro graus negativos - e sensação térmica de -14°C - começava a se tornar insuportável no canteiro de obras da nova estação.

Para o quarto dia da viagem é prevista uma viagem à Ilha Deception, onde não há comunicação.

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