Luciana Garbin/Estadão
Luciana Garbin/Estadão

Estadão na Antártida, dia 6: Estação Arctowski

Encontramos um grupo de poloneses, que criaram o centro de estudos ainda nos anos 1970, e são os maiores vizinhos dos brasileiros no continente

Luciana Garbin, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2019 | 17h05

6º dia

Estação Antártica Polonesa Arctowski - 23/02/2019, 17h05

Na Antártida, os vizinhos dos brasileiros são poloneses. E há uma longa história de parceria entre os dois países por aqui. Antes da primeira expedição do Proantar, em 1982, os europeus já compartilhavam informações sobre a Ilha Rei George, onde a Estação Comandante Ferraz seria depois instalada. Nossos primeiros vizinhos chegaram a esta região em 26 de fevereiro de 1976. Eram 20 pessoas, que começaram a preparar a construção da estação Arctowski. Em 1978, ela foi oficialmente inaugurada.

Saímos cedo hoje para poder conhecer Arctowski e encontrar um grupo de pesquisadores brasileiros que está hospedado por lá fazendo pesquisas sobre vegetação e bactérias antárticas. O caminho de 9 km entre uma estação e outra foi feito sobre um mar cheio de pedaços de gelo em dois botes de borracha da Marinha brasileira com capacidade para até 15 pessoas. Duas são sempre mergulhadores, treinados para poder responder a qualquer tipo de emergência no mar gelado.

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Em alguns trechos do trajeto era como se estivéssemos passando sobre uma raspadinha gigante, que ia fazendo barulho à medida que avançávamos. Já próximos da base polonesa, passamos por um grande iceberg, de cerca de 30 metros de altura e com um branco azulado intenso, que indica tratar-se de gelo muito antigo. 

Já em Arctowski, o primeiro pesquisador que encontramos do grupo brasileiro é, na verdade, um colombiano. Diego Franco, de 32 anos, mora há dez em São Paulo - e descubro durante a entrevista que também somos vizinhos de bairro. Pesquisador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), ele está finalizando um doutorado em Biotecnologia e, em sua sexta vez na Antártida, estuda a diversidade microbiana presente nos arredores de uma fonte hidrotermal do Estreito de Bransfield – a Hook Ridge -, cuja temperatura gira em torno de 40 graus.

Ele explica que o grupo está aqui fazendo a última coleta com recursos do governo federal do edital passado, encerrado em 2018. Era para ter sido feita em novembro, mas precisou ser adiada por questões de logística. No próximo edital, que selecionou 16 projetos e vigorará a partir deste ano, a USP ficou de fora, pelo menos como grupo de pesquisa principal. Podem haver colaborações, mas associadas a projetos de outras universidades. “Para ficarmos hospedados aqui na estação polonesa, primeiro pedi apoio ao projeto antártico polonês e depois fiz um contato formal via Itamaraty”, explica Diego, que é casado há dois anos com uma polonesa que conheceu em Arctowski.

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Também da USP, Renato Gamba Romano, de 26 anos, está no último ano do curso de Oceanografia e se orgulha em dizer que é um dos primeiros alunos da graduação a já ter vindo três vezes para a Antártida. Gostou tanto do continente austral que quer seguir carreira acadêmica e poder continuar trabalhando com temas antárticos. “Aqui é um ambiente extremo, onde tudo é muito impressionante. Os marinheiros costumam dizer que na Antártida quem tem dois tem um e quem tem um não tem nenhum. Se você não estiver totalmente preparado, a coisa não sai. A logística tem de ser impecável. Você não pode contar que vai encontrar um destilador, por exemplo, e correr o risco de não encontrá-lo, porque não tem onde pedir ou comprar. Então você tem de trazer.”

Depois de tomar um café cheio de guloseimas gentilmente servido pelos poloneses, encontro também Eduardo Toledo de Amorim, de 32 anos, e Bárbara Guedes Costa Silva, de 26, dois pesquisadores da Universidade de Brasília. Ele está aqui coletando plantas bipolares – presentes no Ártico e na Antártida – para levar para o laboratório da Universidade em Brasília e poder extrair, amplificar e sequenciar seu DNA. Ela está pesquisando a interação de uma comunidade de musgos com o ambiente e também monitorando como uma espécie de gramínea trazida de fora está começando a dominar partes da Baía do Almirantado.

Ela é hoje a única pesquisadora brasileira em Arctowski e acha importante reforçar a questão da presença feminina na ciência brasileira. “Estamos começando a conquistar o nosso espaço, mas aqui na Antártida a presença feminina ainda é muito recente.” Há hoje em Arctowski 35 poloneses - 10 mulheres e 25 homens. Em Comandante Ferraz, são cerca de 80 pessoas, sendo cinco mulheres – três chinesas e duas brasileiras.

O mecânico Kamil Bis, de 26 anos, é um dos 14 poloneses que estão vivendo em Arctowski. Ele chegou há quatro meses à Antártida e deve permanecer até outubro. Vai passar o inverno aqui com outros seis homens e duas mulheres e será responsável pelas partes de mecânica, eletrônica e informática da estação. Ele diz que está gostando da experiência no frio antártico. “Aqui é tudo muito bonito. As paisagens, os campos de gelo. Estou achando tudo perfeito.” E o que ele acha de ter hóspedes brasileiros na estação? “Muito legal. É ótimo poder trocar experiências.”

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