Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Estadão na Antártida, dia 7: Estação Antártica Comandante Ferraz

Para ‘invernar’ na estação brasileira é preciso deixar a família e enfrentar dias totalmente escuros, com temperaturas de até -20°C

Luciana Garbin, enviada especial / ANTÁRTIDA, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 17h49

Dia 7

Estação Comandante Ferraz - 24/02/2019, 17h49

Passar todo o inverno na Antártida não é para qualquer um. Na verdade, é para bem poucos que se dispõem a deixar a família para enfrentar dias que chegam a ser totalmente escuros, a uma temperatura de até 20 graus negativos, com sensação térmica de -40°C.

Por isso, a seleção da Marinha é rigorosa. É preciso passar por um check-up geral, que já exclui parte dos concorrentes. Depois, por um exame psicotécnico. Os aprovados são então submetidos a uma semana de treinamento pré-antártico, com acompanhamento de psicólogos e restrição de celulares. Há ainda várias entrevistas, não só com o candidato como com sua família.

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Os escolhidos formam o chamado grupo-base. O deste ano ficará na Estação Brasileira Comandante Ferraz até o fim de novembro. São 16 militares, todos homens, que serão chefiados pelo capitão de fragata Francisco Luiz de Souza Filho. Aos 45 anos, ele passará seu segundo inverno na Antártida - o primeiro foi entre novembro de 2010 e novembro de 2011. Foi embora três meses antes do incêndio que destruiu 70% das instalações brasileiras, em fevereiro de 2012, e resolveu voltar no ano passado. “Queria ver de perto a nova estação”, conta. “Sou o elo entre as três casas do Brasil na Antártida – a que queimou, o Módulo Antártido Emergencial, onde estamos provisoriamente desde o incêndio, e a nova.” A volta teve outra motivação. “Eu conhecia os dois militares que morreram no incêndio da estação. Um deles (Carlos Alberto Figueiredo) passou o inverno comigo.”

O confinamento em situações adversas serve para aproximar o grupo, que ganha nome e símbolo – o deste ano se chama Sperare e tem um símbolo de um pinguim meio bravo. Mas também pode amplificar rusgas. “O desafio sempre é identificar diferenças psicológicas no grupo e tentar evitar ao máximo os atritos, que, em ambientes confinados, acabam se potencializando”, explica.

Como a base agora tem conexão 4G, ficou mais fácil falar com a família, mas os problemas em casa também chegam mais rápido. E sair de Comandante Ferraz no inverno só em caso de extrema urgência. Como o mar congelado impede a aproximação de navios, o jeito é pousar de helicóptero. Os chilenos são responsáveis pelos resgates na Ilha Rei George, onde fica a estação. E, para entregar alimentos perecíveis e outros itens de necessidade, a Força Aérea Brasileira faz quatro missões na base brasileira no inverno. Os Hércules C-130 voam de Punta Arenas até a estação e passam até 11 vezes sobre ela de cada vez, lançando de paraquedas paletes com frutas e legumes por exemplo.

O subchefe da estação, Israel Levi Oliveira, de 37 anos, nos conta que um dos requisitos para “invernar” é estar disponível para diferentes funções. “Isso já faz parte da preparação”, diz. “E quando você tem rotina fica mais fácil”, completa Souza Filho. “Dia difícil é aquele em que você não tem uma rotina.”

Por rotina, entenda-se manter a base, iluminar os dois lagos da estação, fazer a verificação de máquinas, tratores e válvulas, se revezar nas rondas e deixar tudo preparado para o verão. É preciso rotina também para acordar e dormir porque com tudo escuro é comum sentir mais sono.

Até nas questões de saúde a Antártida tem suas peculiaridades, como conta o médico e primeiro-tenente Rodrigo Nunes Martins, outro integrante do grupo base deste ano. A alta radiação solar, por exemplo, faz aumentar o risco de catarata. A secura castiga a pele. O sangramento nasal e a dor de ouvido podem ser mais frequentes. E o frio enrijece os músculos e facilita contusões – ontem, com dor nas costas, eu ironicamente fui a única atendida na enfermaria da estação.

O sistema imunológico também requer cuidados de quem passa o inverno por aqui. Como ficam alguns meses sem contato com outras pessoas, quem permanece confinado na base no inverno precisa se cuidar para não adoecer com vírus trazidos por quem vem de fora quando chega o verão.

O retorno para casa também requer atenção. “Quando a gente volta, está em outro ritmo e tem de fazer a reentrada na família. Eu por exemplo cheguei e comprei uma máquina de lavar que era exatamente igual à da estação”, conta Souza Filho. E por que uma máquina de lavar? “Não sei, já estava habituado, sabia fazer manutenção, então comprei.”

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