Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Estadão na Antártida, dia 2: O gigante vermelho

No segundo dia da expedição, você conhecerá o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel H44 por dentro

Luciana Garbin, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2019 | 23h00

2º dia

Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel H44 - 19/02/2019, 21h32

O boletim Alvorada chega pelos alto-falantes do Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel H44 exatamente às 7 horas. Começa com uma música – de preferência calma - e prossegue com uma sequência de informações úteis para quem está a bordo: onde o navio está, se está navegando ou fundeado, qual a temperatura externa do ar e da água. Depois, cita as notícias principais do dia, avisa se tem algum aniversariante a bordo, dá resultados de jogos do dia anterior e repete uma das informações mais ouvidas quando se está num navio na Antártida: a de que uma pessoa só consegue sobreviver 90 segundos se cair no mar gelado da região.

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Passamos quase todo o nosso segundo dia dentro do “gigante vermelho”. Esse é o apelido dado ao Ary Rongel por causa da cor de seu casco, pensada para se sobreassair entre o branco das geleiras. Quando acordamos, o navio já havia retornado à base chilena Presidente Eduardo Frei Montalva para que alguns pesquisadores pudessem desembarcar e viajar para Punta Arenas a bordo do Hércules da FAB. O mau tempo desta segunda-feira impediu que todos conseguissem desembarcar a tempo de decolar e o jeito foi retornar nesta terça-feira.

Faz mais um dia de sol e pouco vento, mas persistem os 2 graus negativos fora do navio e os 18 graus dentro, uma temperatura muito mais agradável mas que ainda nos obriga a usar duas meias, duas calças e pelos menos duas blusas.

Depois do café da manhã, com pão com manteiga, café com leite e melão, subi até o passadiço do navio para conversar com o comandante Antonio Braz de Souza. Esse é o local de comando do navio, onde ficam o timão, os radares, o telégrafo e a agulha giroscópica, entre outros equipamentos.

Aos 47 anos, o capitão de mar e guerra carioca que entrou para o Colégio Naval em Angra dos Reis aos 15 deve se despedir da Antártida em abril, após cumprir quatro operações antárticas – cada uma delas com seis meses de duração e outros seis de preparação. Após cruzar nada menos que 29 vezes o Drake, considerado o mar mais perigoso do mundo, e acumular cerca de 1,6 mil dias de experiência no mar, ele diz que a maior preocupação é sempre devolver todo mundo bem a seus lares. E a outra, tentar reduzir o estresse dos 81 tripulantes para que eles possam aguentar bem os seis meses de trabalho fora de casa, num esquema contínuo de 4 horas de ativa por 8 de folga e 24 horas de disponibilidade caso haja necessidade.

Os oficiais têm à disposição uma Praça D'Armas com televisão e HD de quatro teras de filmes. Quem quiser também pode malhar na Ary Fit, uma academia que funciona numa sala bem mais gelada que as do resto do navio e tem horário diferenciado para mulheres. Às terças e quintas há cultos evangélicos e às quartas e domingos, missas católicas. Sempre às 19 horas no laboratório à vante. No culto que acompanhamos nesta terça-feira, ministrado pelo pastor e supervisor de mergulho Robson Ribeiro de Oliveira, de 48 anos, há 32 na Marinha, havia nove pessoas presentes, inclusive o capelão católico. A oração final começa com um pedido de "águas tranquilas" nos próximos dias. "A gente deixa nossa família no Brasil e aqui temos um momento de clamar ao Senhor e revigorar nossa parte espiritual e psicológica", explica.

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De vez em quando, há alguma confraternização a bordo e, quando o porão está vazio, até churrascos são feitos por ali – algo impossível durante nossa estadia, já que agora um grande trator toma parte do espaço. Bebidas são controladas: quem está de serviço não pode beber e quem não está tem de estar pronto para o caso de alguma avaria grave ou emergência no navio, como alagamento ou incêndio.

“Aqui a gente não abre mão da segurança por uma lata de cerveja”, explica o imediato Romivaldo Silva Vasques, capitão de fragata responsável pela administração do navio. Isso inclui atividades tão variadas quanto cuidar do que será servido nas refeições, inspecionar se os camarotes estão sendo limpos – uma responsabilidade dos ocupantes –, administrar demandas de pesquisadores. “A operação antártica é considerada a mais complexa da Marinha, porque o navio se afasta muito dos pontos logísticos. Eu sempre digo a todos que aqui não existem amadores porque estamos na Antártida e não podemos falhar.”

Na questão da comida, o usual é trazer 80% dos ingredientes do Brasil e adquirir os 20% restantes no Chile. No navio, eles serão acondicionados em quatro contêineres frigoríficos ou em paiois de gêneros secos. Dependendo do tempo de viagem, começam a rarear verduras e frutas nas refeições. E legumes, pães e carnes são mantidos congelados. Alguns pratos foram batizados por nomes pra lá de curiosos pelos marinheiros. Purê de batata com carne moída é chamado de manto sagrado. Se for purê com frango, manto celestial. Hambúrguer é pata de elefante, suco jacuba e macarrão à bolonhesa, macaquinho no cipó.

Embarcar num navio da Marinha é também mergulhar num rico universo de significados e simbolismos. No caso do Ary Rongel, há azulejos pelas paredes das 36 operações antárticas anteriores feitas pelo Brasil na Antártida – nele e no antecessor, o navio Barão de Teffé. Estamos agora na 37ª. Bem próxima, outra parede guarda dezenas de brasões recebidos pelo navio, por exemplo de autoridades uruguaias e peruanas. Como a cooperação internacional é uma das marcas do relacionamento na Antártida, é comum que o navio receba autoridades locais e troque presentes.

Também não poderia faltar um pequeno memorial em homenagem ao almirante de esquadra e hidrógrafo Ary dos Santos Rongel, que dá nome ao navio. Além de um retrato dele, há uma espada e uma carta que escreveu em 1949 lembrando que o “seguro morreu de velho”. Um sinal de respeito aos mares da região, que se nota a todo instante na Antártida.

Com capacidade hoje para 107 passageiros, o Ary Rongel foi construído na Noruega e incorporado à frota brasileira em 1994. Hoje serve principalmente como um navio de logística e pode carregar até 3.670 toneladas. Com 75,2 metros de comprimento, 13 de largura e 6,2 de calado, viaja em média a 12 nós por hora de velocidade (22 km/h) e possui hélices acopladas ao casco lateral do navio que facilitam as manobras. Um tanque de compensação ajuda a centralizar o impacto dos ventos, que chegam a 160 km/h.

Além de um grande gerador central de energia, o navio tem incinerador de lixo e dessalinizador que tira o sal de cerca de 15 mil litros de água por dia – toda ela usada no próprio navio. Para poder navegar entre blocos de gelo fragmentados de até 80 centímetros de espessura , o Ary Rongel teve o casco reforçado atrás e na frente – são dois centímetros de aço, o dobro do convencional. A embarcação também tem consultórios médico e dentário, um centro de monitoramento meteorológico, ecobatímetros (para medir profundidades de mais de 4 mil metros) e sonares. Quatro mergulhadores estão sempre a bordo para acompanhar as operações com botes – dois em cada – e dois helicópteros são muito utilizados para transporte de pessoas e atividades de reconhecimento.

A comunicação é feita por meio de um telefone satelital, usado pela tripulação em emergências e para se comunicar com pesquisadores acampados, e por um sistema militar por satélite que permite comunicação por voz e dados. Mas na prática internet é artigo quase de luxo em navio – geralmente só se consegue mandar um e-mail à noite e com sorte.

Ouça os relatos da editora do Estadão Luciana Garbin na Rádio Eldorado

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