Estado do Mundo 2003 indica mudanças positivas

A confirmação de algumas tendências no setor energético e casos pontuais de sucesso no combate à miséria e degradação ambiental são os destaques do relatório Estado do Mundo 2003, lançado nesta quinta-feira, em Washington, nos Estados Unidos, pela organização de pesquisa independente Worldwatch Institute. Em meio a estatísticas catastróficas, como a acelerada extinção de aves e o aumento do número de casos de doenças relacionadas a insetos vetores e a más condições sanitárias, as mudanças positivas são reconhecidas pelos autores do relatório como a ?capacidade humana de responder rapidamente a ameaças sociais e ambientais sem precedentes?.Em que pesem as diversas reuniões, acordos e tratados ambientais celebrados entre nações, com apoio de organismos internacionais, os sinais mais concretos de reversão de tendências vêm de organizações não governamentais (ongs), governos locais, setor privado e mesmo de indívíduos, diz Christopher Flavin, presidente do Worldwatch Institute. Para ele, ?uma das vantagens do mundo globalizado é poder divulgar as experiências de sucesso de comunidades, com chance de vê-las reproduzidas em outras localidades, a milhares de quilômetros de distância?. Flavin declara-se otimista com o potencial das pequenas iniciativas comunitárias ou individuais, que embasariam melhor os acordos internacionais, hoje estanques devido à resistência das grandes economias ? como o Protocolo de Kyoto, com a não adesão dos Estados Unidos ? ou por falta de condições de financiamento dos organismos internacionais. ?Um dos papéis que o Worldwatch espera ter é o de divulgar os casos de sucesso, as milhões de ações locais?, afirma. O documento da instituição aponta alguns parceiros nesta tarefa de disseminar as boas novas, entre instituições religiosas e associações de mulheres, que tem se aproximado das organizações ambientais.Mais energia limpa O Estado do Mundo 2003 destaca, entre as tendências positivas, o crescimento anual de 30% no uso de energias renováveis - solar e eólica, principalmente ? , contra apenas 1 a 2% de aumento no consumo de combustíveis fósseis. Em algumas regiões, estas duas fontes limpas já representam 20% do total de energia consumida. Ao lado da Alemanha, Japão e Espanha, o Brasil é mencionado neste capítulo, ?devido à legislação aprovada pelo Congresso Nacional, que abre novas perspectivas de investimento em fontes renováveis, e por algumas experiências já reconhecidas e imitadas, como o uso de biomassa (de cana-de-açúcar) e novas propostas para o transporte urbano (de Curitiba)?, explica Flavin, ressalvando que ainda é preciso esperar confirmar estas tendências, na política do novo governo.A reciclagem de alguns materiais nobres, com grande economia de energia e matérias primas, é outro sinal positivo ressaltado. Na Holanda, a reciclagem de automóveis chega a 86% e a Dinamarca baniu totalmente o uso de latas de alumínio, adotando garrafas de vidro reutilizáveis. A versão tupiniquim mais bem sucedida de reciclagem é a das latas de alumínio, que já causam disputas entre catadores, em eventos públicos e nas portas de casas de espetáculos. Cerca de 150 mil brasileiros vivem da reciclagem de alumínio, hoje na casa dos 85%, superando o Japão, com 82,8%, segundo dados da Associação Brasileira de Alumínio (Abal).Diversas iniciativas de redução da miséria em comunidades de países em desenvolvimento foram mencionadas no Estado do Mundo 2003, muitas das quais dependeram de novos sistemas de micro financiamentos, que ajudaram no estabelecimento de pequenos negócios de reciclagem, coleta ou substituição de práticas degradadoras do meio ambiente. Ainda entre os casos de sucesso, cita-se o esforço global para reduzir o uso de substâncias prejudiciais ao ozônio estratosférico. A queda na produção de CFCs, nos anos 90, foi de 81%. Em conseqüência, diminuiu o ritmo de crescimento no buraco da camada de ozônio sobre a Antártica.Mais insetos vetoresNo campo da saúde, a campanha de erradicação da poliomielite da Organização Mundial da Saúde (OMS) conseguiu reduzir o registro mundial de casos de 350 mil, em 1988, para 480, em 2001. Mas as más notícias superam as boas: doenças transmitidas por insetos estão proliferando com fôlego redobrado, sobretudo se associadas à pobreza e mudanças climáticas, como a malária (7 mil mortes por dia, no mundo) e a dengue. A malária tornou-se resistente à maioria dos remédios conhecidos e seu controle ainda depende do uso de DDT, que causa envenenamentos e contaminação ambiental persistente. Os poucos programas bem sucedidos de controle da disseminação da doença, na África, são os de distribuição de mosquiteiros impregnados de inseticidas. No México, a parceria do governo com comunidades e o enfoque na prevenção e uso de produtos menos tóxicos vem surtindo bons efeitos.Além das doenças que tem insetos como vetores, as más condições sanitárias, falta d?água potável e contaminação dos alimentos, ar e água também resultam numa tendência negativa persistente, roubando a vida de 5,5 mil crianças, diariamente.Menos biodiversidadeA perda da biodiversidade é mais uma tendência negativa reconfirmada. Atividades humanas, desmatamentos e destruição de habitat nativo elevaram o ritmo de extinções de espécies de aves 50 vezes acima do que seria considerado natural. Nos últimos 500 anos, foram extintas 128 espécies de aves, 103 das quais nos últimos 200 anos. Extinção de aves, como a ararinha azul, indicam degradação ambiental. Crédito Zôo SP / DivulgaçãoNo Brasil, a última revisão da lista de espécies ameaçadas dá como extinta a arara celeste (Anodorhynchus glaucus), do Paraná, e o maçarico-esquimó (Numenius borealis), espécie migratória. Foram considerados extintos na natureza o mutum (Mitu mitu), de Alagoas, e a ararinha azul (Cyannopsitta spixii), da Bahia. E 156 outras espécies de aves estão na lista das ameaçadas de extinção.?Estes desaparecimentos não marcam apenas a perda de espécies únicas, mas refletem o desequilíbrio da delicada estabilidade natural?, diz o relatório. ?Além de prover inestimáveis serviços e bens a seu ambiente nativos, as aves são preciosos indicadores de saúde ambiental: o declínio de suas populações é um índice de degradação ambiental?.

Agencia Estado,

09 de janeiro de 2003 | 20h34

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