Dado Ruvic/Reuters
Dado Ruvic/Reuters

Este é o seu cérebro sem o Facebook

Estudo analisa impacto em pessoas que deixaram de usar plataforma

Bennedict Carey, The New York Times

05 Fevereiro 2019 | 18h53

O hábito digital mais comum do mundo não é fácil de romper, mesmo com a onda de indignação moral com os riscos à privacidade e divisões políticas que o Facebook criou, ou as preocupações quanto a esse hábito afetar a saúde emocional. Embora quatro em cada dez usuários do Facebook afirmem fazer longas pausas da plataforma digital, ela continua crescendo. Um estudo recente concluiu que o usuário médio deveria receber entre mil e dois dólares para ficar ausente da rede social durante um ano.

Então o que sucede se você realmente deixar a plataforma? Um novo estudo, o mais amplo realizado até agora, nos oferece uma antevisão.

As consequências mais imediatas: mais tempo de contato pessoal com amigos e a família. Menos informação política, mas também menos frenesi partidário. Uma pequena sacudida no humor quotidiano e na satisfação de vida. E no caso do usuário médio do Facebook, uma hora extra de descanso por dia.

O estudo realizado por pesquisadores da Stanford University e a New York University ajuda a esclarecer o incessante debate sobre a influência do Facebook no comportamento, no  pensamento e visão política dos seus usuários ativos,  que chegam a 2,3 bilhões em todo o mundo. O estudo foi publicado recentemente na Social Science Research Network, um website com acesso aberto.

“Para mim o Facebook é uma daquelas coisas compulsivas”, disse Aaron Kelly, 23 anos, estudante universitário em Madison, Wisconsin. "Ele é útil, mas sempre achei que estava perdendo meu tempo, acabava me distraindo dos estudos e usando-o quando estava entediado”.

Kelly, que  passa uma hora por dia na plataforma, participou do estudo “porque era interessante ter uma desculpa para desativá-lo e ver o que sucederia”, afirmou.

Bem antes da notícia de que o Facebook havia compartilhado dados dos seus usuários sem consentimento deles, cientistas e usuários habituais já discutiam como a rede social havia mudado sua vida quotidiana.

Um grupo de psicólogos vem argumentando há anos que o uso do Facebook e de outras redes sociais está relacionado com um desconforto mental, especialmente no caso dos adolescentes. Outros ligam o uso do Facebook a um transtorno mental, comparando-o à dependência de droga e chegaram a publicar imagens de ressonância magnética do que o vício do Facebook “se parece no cérebro”.

Quando a rede social publicou suas próprias análises para testar tais afirmações, a empresa foi duramente criticada. O novo estudo, financiado principalmente pela Alfred P. Sloan Foundation, grupo apartidário que apoia pesquisas nos campos da ciência, tecnologia e economia - delineou um retrato balanceado, matizado, do uso diário da rede social que não deverá satisfazer nem os críticos e nem os defensores dela.

Um assessor de imprensa do Facebook disse em comunicado que “este é um estudo entre muitos sobre o assunto e deve ser considerado desta maneira”. No comunicado foi observado ainda que “o Facebook produz amplos benefícios para seus usuários. Qualquer discussão dos inconvenientes da mídia social não deve ocultar o fato de que ela satisfaz necessidades profundas e abrangentes”.

Os pesquisadores, liderados por Hunt Allcott, professor de Economia na universidade de Nova York, e Matthew Gentzkow, economista de Stanford - usaram anúncios no Facebook para recrutar participantes do estudo com mais de 18 anos e que passavam pelo menos 15 minutos por dia na plataforma; a média diária era de uma hora, com os mais ligados na rede passando duas a três horas, ou mais.

Quase três mil usuários aceitaram participar da experiência e preencheram extensos questionários, com perguntas sobre sua rotina diária, visão política e seu estado de espírito no geral.

Metade dos usuários foi convidada aleatoriamente a desativar sua conta no Facebook durante um mês, em troca de um pagamento. A faixa de preço era em si algo de grande interesse dos pesquisadores: quanto valeria o acesso mensal a fotos, comentários, grupos da rede, amigos e às notícias? Em média US$ 100, concluiu o estudo, o que está de acordo com análises feitas anteriormente.

Alguns participantes disseram que não valorizavam os benefícios da plataforma até terem desativado a conta. “Senti falta dos meus contatos com as pessoas, naturalmente, mas também dos eventos de streaming no Facebook Live, políticos especialmente, quando você sabe que está assistindo com pessoas interessadas na mesma coisa”, afirmou Connie Graves, 56 anos, enfermeira a domicílio no Texas, participante do estudo. “E percebi que era bom ter um lugar onde podia obter a informação que desejava imediatamente”.

Ela e seus camaradas que se desligaram da rede tiveram acesso ao Messenger do Facebook na fase do estudo. O Messenger é um produto diferente e a equipe de pesquisa decidiu permitir acesso a ele porque tem similaridades com outros serviços de mídia cujo contato com as pessoas é mais direto.

Quando o mês acabou, aqueles que haviam desativado sua conta e os outros que permaneceram ligados na plataforma novamente preencheram um amplo questionário que avaliou as mudanças no seu estado de espírito, consciência política e paixões partidárias, como também o vai e vem das suas atividades quotidianas, online e off-line, desde o início do experimento.

No caso daqueles que se abstiveram,  o afastamento do Facebook os deixou liberados por uma hora ao dia, em media, e no caso dos mais viciados na rede o tempo livre dobrou. Eles reportaram também ter passado mais tempo com amigos e família ou assistindo TV.

“Eu esperava que eles substituíssem o Facebook por outras coisas digitais, como Twitter, Snapchat, ou navegando online”, disse Gentzkow. “Isto não ocorreu e para mim foi uma surpresa”.

Nos testes sobre informação polítics, os que se abstiveram da plataforma registraram menos pontos do que antes de desativarem suas contas.

“A conclusão, neste aspecto, sugere que o Facebook é uma fonte importante de notícias à qual as pessoas prestam atenção”, afirmou David Lazer, professor de ciências políticas e ciência da informação e computação na Northeastern University. “Esta é não é uma descoberta trivial. Você imaginaria que outros tipos de conversa e informações no Facebook estavam excluindo o consumo de notícias”

As pontuações no caso de considerações sobre polarização política foram ambivalentes, embora a “polarização sobre assuntos” entre os que ficaram desligados da rede caiu de 5% a 10%, ao passo que no outro grupo continuou a mesma porcentagem.

O resultado mais impressionante do estudo foi que a desativação do Facebook teve um efeito positivo, embora pequeno, no estado de espírito e satisfação com a vida das pessoas. Essa conclusão abranda a suposição mantida amplamente de que o uso habitual da mídia social causa uma angústia psicológica.

Esta noção foi extraída em parte de estudos em que usuários de mídia social eram indagados quanto à extensão do uso e seu estado de espírito em geral. Por exemplo, pesquisa conduzida por Ethan Kross, professor de psicologia da Universidade de Michigan, concluiu que a excessiva navegação passiva na mídia social prognosticava estados mais depressivos, em comparação com um engajamento mais ativo.

Se o uso em excesso do Facebook causa problemas de humor, os pesquisadores esperavam que o estado de ânimo dos usuários se intensificasse muito em relação aos menos adeptos. Mas isso não se verificou o que sugere que aqueles mais ligados estavam maldispostos antes de ficarem profundamente absorvidos no Facebook.

Em uma entrevista, Kross disse ser muito cedo para tirar conclusões mais firmes sobre os efeitos psicológicos do desligamento do Facebook. E apontou para dois estudos aleatórios, recentes e menos ambiciosos, que concluíram que o estado de espírito dos usuários melhorou quando seu acesso à mídia social foi limitado.

“O que retenho desses estudos - o de Stanford e os outros dois menores é que precisamos saber mais sobre como e quando o uso da mídia social tem impacto sobre o bem-estar, e não concluir que a relação não existe, ou que é muito pequena”, disse Kross.

Encerrada uma parte do estudo um mês depois, os pesquisadores perguntaram aos que deixaram a rede social quanto eles deveriam receber para ficarem longe do Facebook por mais um mês, hipoteticamente. Desta vez a faixa de preço caiu para menos de US$ 100 - mas não para todos. “Disse a eles que seriam US$ 200 para mais quatro semanas, no mínimo”, disse Connie Graves, que ainda não retornou ao Facebook./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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