Estudo da ONU destaca os grandes desafios globais

A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou, hoje, em Nova York, mais um relatório recheado de números e informações para subsidiar a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10), que se inicia dentro de dez dias, em Joanesburgo, África do Sul. O documento ?Desafio Global, Oportunidades Globais?, apresentado por Nitin Desai, secretário da Rio+10, faz uma radiografia do atual estado do mundo e das tendências de evolução em 5 áreas: água e saneamento, biodiversidade e ecossistemas, energia, agricultura e saúde. Identificadas como críticas e prioritárias, estas 5 áreas influenciam fortemente o desenvolvimento sustentável, que se pretende promover, com complexas interações entre seus aspectos econômicos, sociais e ambientais.Os números do relatório foram analisados por especialistas de diversos organismos das Nações Unidas - FAO, Unicef, Pnuma e OMS ? além do Banco Mundial e Agência Internacional de Energia. Segundo as estimativas contidas no documento, a Terra abrigará 8 bilhões de pessoas até 2025 e cerca de 9,3 bilhões até 2050. A população humana tenderia a se estabilizar em 10 a 11 bilhões, depois disso. As maiores taxas de crescimento estão nos países em desenvolvimento, onde também há uma tendência de aumento dos níveis de consumo, seguindo os altos padrões hoje verificados nos países desenvolvidos. Nos anos 90, conforme o documento, já houve um ligeiro declínio no número de pessoas que vivem com menos de US$ 1 por dia, de 1,3 bilhão para 1,2 bilhão. Uma das metas da ONU, contidas na Declaração do Milênio, é reduzir esse número pela metade até 2015.PopulaçãoA demanda por alimentos, saúde, energia e bens de consumo de toda esta gente, concentrada, sobretudo, em áreas urbanas, coloca em sério risco os recursos naturais. De acordo com as projeções para 2025, as regiões onde a densidade populacional tende a continuar extremamente alta ou crescer, superando 125 pessoas por km2, são: Europa Central, Nordeste dos Estados Unidos, Sul e Leste da Ásia, Centro-Oeste da África, América Central e todas as megacidades do mundo. Além de se distribuir de forma desigual, a população humana consome os recursos naturais de maneira diferenciada, os mais ricos e urbanos tendendo a padrões menos sustentáveis. Isso coloca um dos maiores desafios diante dos 100 chefes de estado, que estarão presentes na Rio+10: encontrar meios de continuar reduzindo a pobreza e aumentando o consumo de alimentos e bens, e, ao mesmo tempo, garantir a preservação da biodiversidade, ecossistemas, água, recursos pesqueiros, solo agrícola, etc. AlimentosA proporção de grãos importados, consumidos pelos países desenvolvidos, por exemplo, já passou de 4 para 10%, entre os anos 80 e 90, e hoje é uma demanda que ultrapassa 107 milhões de toneladas ao ano. A tendência, identificada pelos especialistas da ONU, é de aumento significativo da importação de alimentos também pelos países asiáticos emergentes.Hoje, 11% da superfície terrestre já é cultivada e não há mais como expandir a agricultura em pelo menos 3 regiões superpovoadas: Sul e Leste da Ásia e Europa, onde começam a surgir restrições também quanto à disponibilidade de água doce, aumentando a dependência destas populações de importações. No Oeste da Ásia e Norte da África, as possibilidades de expandir a agricultura são igualmente limitadas pela disponibilidade de água. Logo aumenta, a cada ano, a pressão mundial para o incremento da área cultivada e da produtividade na América Latina e África sub-saariana, onde impedir conseqüências como o desmatamento e a desertificação são as maiores preocupações.ÁguaO uso crescente de água doce é outro grande desafio global. No último século, o aproveitamento humano dos recursos hídricos foi multiplicado por seis, mais do que o dobro da taxa de crescimento populacional do período. Na média global, cerca de 90% desta água serve à irrigação, mas a análise regional mostra grande disparidade dos países industrializados, nos quais o uso industrial dos recursos hídricos chega a se equiparar ao agrícola. O maior consumo per capita ? acima de 1.500 metros cúbicos por ano ? também é dos países industrializados e o menor ? menos de 200 m3/ano ? é da África sub-saariana. A América Latina está numa posição intermediária, com aproximadamente 600 m3/ano por habitante. Até o ano 2025, o relatório da ONU estima que 3,5 bilhões de pessoas enfrentarão escassez de água. A principal dificuldade diante das autoridades é restabelecer ou manter o equilíbrio dos ecossistemas, que garantem a produção de água e sua qualidade, enquanto cresce a demanda da humanidade por recursos hídricos, para múltiplos usos, e aumentam os impactos de atividades humanas sobre os corpos d?água (poluição, sedimentação, sobreuso). Isso, sem esquecer que os próprios ecossistemas e suas espécies também disputam parte destes recursos hídricos com os homens.DesmatamentosO documento ?Desafio Global, Oportunidades Globais? ainda chama a atenção para a taxa de desmatamento, em todo mundo, ao redor de 90 mil km2 ao ano. Segundo estes cálculos, a Terra perdeu 2,4% da cobertura florestal, nos decorrer dos anos 90. Proporcionalemtne, a África perdeu mais (7%), seguida da América Latina (5%), onde há uma desaceleração do desmatamento (quase 8% na década anterior). A Ásia foi o cenário da maior mudança: nos anos 80, estava em primeiro lugar, com quase 9% de perda da cobertura florestal por década, tendo passado para 1%, nos anos 90, por conta de muitos reflorestamentos. A Europa continua com saldo positivo, replantando ao redor de 1% das florestas por década.O manejo sustentável das florestas é a grande aposta dos líderes mundiais para fazer face ao desmatamento. Atualmente, 2% das florestas são certificadas, o que significa que são manejadas de forma a preservar a biodiversidade, proteger os recursos hídricos e gerar renda. A certificação ainda se concentra na Europa (46,7 milhões de hectares) e América do Norte (30,5 milhões de ha), mas está sendo adotada com rapidez em outras regiões. A América Latina tem 2 milhões de hectares de florestas certificadas.

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