Catlin Saview/Survey Underwater Earth
Catlin Saview/Survey Underwater Earth

Estudo indica que aquecimento do oceano ameaça Grande Barreira de Corais

Cobertura de recifes na costa da Austrália poderá ser reduzida a menos de 10% de sua extensão original se a temperatura aumentar

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2015 | 07h00

 SÃO PAULO - A cobertura de corais vivos na Grande Barreira de Corais da Austrália poderá ser reduzida a menos de 10% de sua extensão, a longo prazo, caso o aquecimento do oceano continue no ritmo atual, de acordo com um novo estudo.

A pesquisa, realizada por cientistas do Instituto Nacional de Síntese Matemática e Biológica (Estados Unidos), avaliou as consequências das mudanças climáticas para os recifes em curto e longo prazo. De acordo com o trabalho, publicado na revista Ecology, com um aquecimento global moderado de 1°C a 2°C, a cobertura de corais na Austrália tem grande probabilidade de decrescer para menos de 10% a longo prazo. Os cientistas consideram que manter a cobertura de corais acima dessa porcentagem é essencial para preservar o crescimento dos recifes. 

Com o aumento de temperaturas e as ameaças provocadas por humanos - como desenvolvimento costeiro, poluição e pesca predatória -, os corais poderão ser gradualmente substituídos por esponjas, gorgônias e outras espécies. Se o aumento das temperaturas chegar a 3,5°C, os corais deverão ser cobertos por algas que tendem a sufocá-los. 

As mudanças ambientais já causaram a perda de mais da metade dos recifes de corais do planeta, segundo os pesquisadores. A cobertura de corais, uma medida da porcentagem do fundo do mar coberta por corais vivos, não chega agora a 20%. A Grande Barreira de Corais, que já foi considerada como o sistema de recifes mais primitivo do mundo, perdeu metade de sua cobertura de corais em apenas 27 anos, segundo os cientistas. A pesca predatória, a poluição costeira e o aumento das emissões de gases de efeito estufa estão provocando o aumento da temperatura e a acidificação dos oceanos, assim como outros impactos humanos estão afetando o delicado equilíbrio mantido nos ecossistemas de recifes de corais.

Para realizar o estudo, os cientistas utilizaram modelos estatísticos multivariados e incluiram levantamentos quantitativos de 46 habitats de recifes realizados entre 1996 e 2006. "O modelo apontou que um aumento de 1°C ou 2°C muito provavelmente levaria a um enorme declínio da cobertura de corais, com mudanças em toda a estrutura da comunidade", disse o coordenador do estudo, Matt Spencer, da Universidade de Liverpool (Reino Unido). "Se nosso modelo estiver certo, a Grande Barreira de Corais começará a ficar muito diferente à medida que a temperatura do oceano aumenta", declarou.


"Mesmo a Grande Barreira de Corais, que é gigantesca, remota e intensamente gerenciada, está sendo degradada por atividades humanas. A perda dessa barreira e de outros recifes teria um impacto brutal na biodiversidade marinha e na vida das pessoas que dependem da saúde dos corais para alimentação, turismo e proteção contra tempestades", disse outro dos autores, John Bruno, da Universidade da Carolina do Norte (Estados Unidos).

A Grande Barreira de Corais, que se estende por quase todo o litoral do estado de Queensland, tem tamanho quase igual ao do Japão e contém a maior coleção de recifes de corais do mundo, com 400 tipos de corais, 1500 espécies de peixes e 4 mil tipos de moluscos. 

Segundo Spencer, as conclusões são importante não apenas para prever o futuro dos recifes diante das mudanças climáticas, mas também para aplicação em outros ecossistemas. "A beleza desse estudo é que a mesma abordagem poderia funcionar para outros sistemas, contanto que os dados disponíveis sejam suficientes. Nosso plano é usar o modelo para estudar a dinâmica das florestas europeias", declarou Spencer.

De acordo com ele, Kevin Gross e Peter Edmunds, ambos da Universidade de Carolina do Norte (Estados Unidos), obtiveram resultados semelhantes em um estudo sobre os corais do Caribe. "Eles lançaram um estudo, ao mesmo tempo que nós e utilizando uma metodologia quase idêntica e chegaram às mesmas conclusões em relação à estabilidade a longo prazo dos corais do Caribe", afirmou Spencer.

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