Estudo liga embalagem para comida a doenças cardíacas

Bisfenol-A, usado para fabricação de policarbonato, também já foi ligado a diabetes e obesidade

Will Dunham e Michael Kahn, REUTERS

16 de setembro de 2008 | 18h04

Um novo estudo vincula uma substância usada em diversos utensílios plásticos, inclusive mamadeiras e embalagens de alimentos, a diabetes, obesidade e distúrbios cardíacos, mas a agência reguladora norte-americana disse nesta terça-feira, 16, que tais utensílios continuam sendo considerados seguros.     Veja também: FDA não faz recomendações sobre uso do bisfenol-A Bisfenol-A pode estar ligado a casos de tendência à obesidade Canadá declara produto usado em plásticos perigoso Informações sobre o bisfenol-A (em inglês)  A substância bisfenol-A (BPA), muito usada em embalagens de alimentos, latas e garrafas de bebidas e material para obturação dental, já era questionada devido a testes em animais. Mas o novo estudo britânico, publicado na revista da Associação Médica Americana, concluiu que, entre 1.455 adultos examinados nos EUA, aqueles com maiores níveis de BPA tinham mais propensão a diabetes, doenças cardíacas e problemas hepáticos. A FDA, agência que regula alimentos e drogas nos EUA, prometeu analisar as conclusões, que não foram levadas em consideração quando, em agosto, a agência divulgou um relatório preliminar atestando a segurança do BPA nos seus atuais usos. "Temos confiança nos dados que examinamos e nos dados em que estamos confiando para dizer que a margem de segurança é adequada", disse Laura Tarantino, funcionária do FDA, a jornalistas. "Há coisas que podem ser feitas para reduzir o nível de bisfenol-A, mas não recomendamos que ninguém mude de hábitos ou mude o uso de qualquer desses produtos, porque neste momento não temos provas que indiquem tal necessidade", afirmou. O BPA entra na composição do plástico policarbonatado, um material translúcido e que não estilhaça. Dentro do organismo, o BPA pode se comportar como o hormônio estrogênio, segundo os cientistas. A ingestão se dá pelo desprendimento de partículas plásticas em alimentos e bebidas. Alguns fabricantes estão deixando de usar essa substância. Autoridades canadenses já concluíram que ela é nociva. Mas Steven Hentges, do Conselho Americano de Química, disse que o estudo é inconclusivo. "O bisfenol-A foi muito intensamente estudado em enormes quantidades de pesquisas de laboratório com animais. E o peso das evidências a partir de tais estudos continua a apoiar o uso seguro dos produtos contendo o bisfenol-A", disse Hentges por telefone. Os pesquisadores britânicos admitiram que seu estudo, embora estabeleça uma correlação, não prova os efeitos adversos do BPA. O estudo foi feito com base em exames de urina de adultos de 18 a 74 anos, representativos da população dos EUA. As pessoas que estavam entre as 25% com maior presença da substância na urina tinham o dobro de propensão a ataques cardíacos e à diabete tipo 2, em comparação com os 25 por cento com a menor presença de BPA. Numa reunião de uma comissão do FDA sobre o tema, vários cientistas e ativistas disseram que a agência ignorou pesquisas com animais, e alguns pediram que o uso da substância em embalagens de alimentos seja proibida. O deputado democrata John Dingell, presidente da Comissão de Energia e Comércio da Câmara, disse que o FDA "se foca de forma míope em pesquisas bancadas pelo setor (alimentício e químico)". Tarantino disse que o FDA não ignorou as pesquisas com animais e que os estudos patrocinados pelas empresas de fato foram importantes ao se chegar à conclusão. A comissão consultiva deve apresentar seu parecer em outubro. A funcionária disse que há discussões para que o governo faça seus próprios estudos sobre o BPA, mas que isso poderia levar anos.     Consumidor   Mais de 90% dos norte-americanos têm traços de BPA em seus corpos, mas a FDA diz que os níveis de exposição são muito baixos e os estudos muito preliminares para que haja preocupação.   Ainda assim, o consumidor que quiser evitar o contato com a substância pode tomar algumas precauções. A primeira delas é evitar produtos plásticos que tiverem o número 7 dentro do símbolo de reciclagem. Ele indica o tipo de resina plástica do produto e pode indicar que ele seja feito de policarbonato, cuja matéria-prima é o BPA.   Carlos Thadeu de Oliveira, coordenador de pesquisas do Idec, lembra também que, embora ainda não haja testes no Brasil, há estudos que relatam a migração do bisfenol-A do policarbonato para líquidos a temperaturas acima de 80ºC. "É importante recomendar, então, que não se ferva mamadeiras de plástico duro ou coloque líquidos extremamente quente nelas", disse.   "Resinas epoxy de isolantes elétricos e revestimentos de poliéster também contém o produto, mas o perigo reside, principalmente, quando ele entra em contato com líquidos", acrescentou.    Brasil    No Brasil, o único fabricante do bisfenol-A é a Rhodia, que gera cerca de 25 mil toneladas por ano da substância. Segundo a empresa, o produto, de uso exclusivamente industrial, é utilizado na fabricação de resinas epoxy e de policarbonato. "O bisfenol não está presente em mamadeiras, pois desaparece completamente no processo de produção do plástico. De qualquer maneira, seu uso é seguro e comprovado por diversos estudos no mundo todo", declarou a assessoria da Rhodia.   A Anvisa, que regulamenta as embalagens de alimentos no Brasil, declarou que as normas de utilização do BPA no País foram atualizadas no início do ano, tendo como referência o padrão de segurança da União Européia. O uso da substância é aprovado com restrição de 0,26 mg/kg de plástico e seu uso é considerado seguro dentro dessas normas.     Policarbonato    O bisfenol-A, segundo explica o técnico de ensino do Senai, Clodoaldo Lazareti, é um produto químico utilizado no processo de polimerização do policarbonato (tipo de plástico bastante resistente utilizado em mamadeiras e faróis de carros, por exemplo). "Se o material plástico se degradar, em condições extremas de exposição a altas temperaturas por exemplo, é possível que o plástico se decomponha em sua cadeia orgânica original, o que pode levar a uma liberação de bisfenol-A", explica. O professor acrescenta que essas ocorrências se deram, até o momento, apenas em situações extremas e experimentais.   (com informações de AP e Giovanna Montemurro, do estadao.com.br)

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