Estudo liga reação fisiológica ao medo a posição política

Pessoas que reagem mais prontamente a ameaças imediatas tendem a favorecer medidas conservadoras

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

18 de setembro de 2008 | 15h29

Pessoas que têm um organismo sensível a imagens e sons assustadores tendem mais a favorecer políticas como a pena de morte e o aumento dos gastos militares do que pessoas com reação fisiológica menos exacerbada a esses estímulos, diz um estudo realizado com 46 voluntários e publicado na edição desta semana da revista Science.   Cobertura completa da eleição nos EUA   "Seria fácil saltar para a conclusão de que pessoas de direita são mais fáceis de assustar, mas não achamos que essa seja a interpretação correta de nossos resultados", diz um dos autores do trabalho, o cientista político Matthew Hibbing, da Universidade de Illinois. "Por exemplo, não examinamos diretamente as opiniões econômicas que costumam ser muito importantes para os conservadores. De fato, acreditamos que nossos resultados mostram uma ligação entre a sensibilidade da pessoa a ameaças no ambiente imediato e suas opiniões sobre ameaças à sociedade".   Realizado em 2007, o estudo vem a público em plena temporada de eleição presidencial nos EUA. O grupo de cientistas políticos e psicólogos de que Hibbing faz parte buscou descobrir se, além de variar de acordo com a biografia de cada indivíduo, as preferências políticas também poderiam ter base biológica. Para isso, submeteram os participantes do estudo a questionários sobre suas opiniões em relação a medidas, como a pena de morte e o gasto militar, consideradas "de proteção da estrutura social tal como ela é".   Depois, os mesmos voluntários tiveram suas reações fisiológicas monitoradas por um aparelho semelhante a um detector de mentiras, enquanto assistiam à projeção de uma série de imagens - na maioria neutras, mas com alguns quadros ameaçadores misturados, como uma aranha ou uma ferida aberta. Sons repentinos também foram usados para surpreender os participantes.   A intensidade da reação às imagens e sons assustadores foi medida com base na variação da condutividade elétrica da pele, relacionada à transpiração, e da força com que as pálpebras se fechavam quando o voluntário piscava, relacionada a quanto os olhos haviam se arregalado no instante anterior.   O resultado mostrou uma forte correlação entre reações fisiológicas mais exacerbadas e um apoio maior às "medidas de proteção". Por exemplo, as pessoas que defendiam medidas políticas mais duras e restritivas piscavam, ao ser assustadas por um som repentino, com três vezes mais força, em média, que os voluntários mais liberais.   Os autores são cuidadosos em ressaltar que o estudo não permite determinar se condições fisiológicas inatas levam às opiniões políticas mais duras, ou se as opiniões políticas condicionam a fisiologia. "Mas há boas razões para duvidar  da idéia de que são as atitudes políticas que levam à maior sensibilidade fisiológica a ameaças", diz Hibbing.   "Primeiro, porque as respostas fisiológicas estão acontecendo abaixo da percepção consciente, o que significa que os voluntários não sabem como estão respondendo aos estímulos", explica o cientista político. "Segundo, as imagens que usamos são apolíticas. Não está claro por que alguém que quer mais investimento nas Forças Armadas reagiria de modo mais intenso a uma aranha. É mais provável que a mesma força que leva as pessoas a serem sensíveis a uma ameaça genérica também as leve a adotar posturas de proteção da sociedade, na política".   Hibbing acredita que haja um forte componente genético nas variações encontradas no estudo. "Como as respostas fisiológicas ocorrem de forma inconsciente, qualquer determinação social de um reflexo involuntário desses teria de envolver o uso imediato e sistemático de recompensa e punição", explica. "Como esse tipo de condicionamento é improvável, temos a forte suspeita de que a fonte desse comportamento é uma combinação de genética com alguns fatores ambientais".   O cientista político não acredita que o momento social vivido pelos EUA - com a guerra ao terrorismo e a guerra no Iraque - tenha sido determinante para os resultados da pesquisa. "O estado da sociedade não explica por que vemos pessoas diferentes reagirem de forma diferente, a despeito do fato de que estamos todos vivendo no mesmo lugar e no mesmo ponto da história".

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