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Estudo mostra elo entre reversão de campo magnético e crise ambiental no passado

Descoberta indica que as mudanças climáticas também ocorrem sem ação humana

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2021 | 05h00

Se você estivesse vivo entre os anos 41.560 e 41.050 antes do nascimento de Cristo, e possuísse uma bússola, teria observado que o ponteiro que antes apontava para o Norte passou a apontar para o Sul, consequência da reversão temporária do campo magnético da Terra. Reversões como essa ocorrem vez por outra: a anterior foi 780 mil anos atrás, antes do aparecimento dos seres humanos. A novidade é que a data exata da última reversão foi descoberta e está relacionada a uma séria crise ambiental.

Tudo começou quando os cientistas acharam um enorme tronco de árvore, de 60 toneladas, preservado em um pântano na Nova Zelândia. Examinando os enormes discos de madeira de mais de 3 metros de diâmetro foi possível contar 1.700 anéis de crescimento, o que demonstra que a árvore sobreviveu mais de 1.700 anos. 

Comparando a quantidade de carbono 14 e outros elementos radioativos, foi possível estimar com uma precisão de 40 anos a data em que a árvore nasceu e morreu. Até aí sem novidade. A grande novidade é que a quantidade de carbono 14 nos discos não era homogênea ao longo do tempo como esperado, mas aumentava no período que vai de 41.560 a 41.050. O carbono 14 é produzido na alta atmosfera por bombardeamento de raios cósmicos. Essa forma é incorporada pelas plantas durante a fotossíntese e permanece na madeira. Para que exista um aumento na quantidade de carbono 14 na atmosfera é preciso que a quantidade de raios cósmicos que atingem a Terra tenha aumentado muito. E, como sabemos, o que impede que nosso planeta seja “torrado” pelos raios cósmicos é o campo magnético. Ou seja, os cientistas tinham acabado de descobrir a data em que o campo magnético da Terra ficou mais fraco. Já se sabia que esse enfraquecimento do campo e sua reversão tinham ocorrido, mas não se sabia a data exata. Foi entre os anos 41.560 e 41.050, durante a vida dessa árvore.

Até aqui uma descoberta interessante, mas de interesse limitado, se não fosse a data. Foi exatamente nessa época que grande parte da fauna de grandes mamíferos desapareceu da Austrália, que a temperatura aumentou em certas regiões do planeta e o gelo cobriu parte das Américas e da Europa. O próprio tronco revela que a árvore analisada passou por uma crise nesse período, pois os anéis são mais finos, indicando que teve dificuldade para crescer. Além disso, são dessa época as primeiras pinturas feitas pelo ser humano nas cavernas e o desaparecimento do homem de Neandertal.

O que os cientistas propõem nesse trabalho é que nesses 510 anos houve alterações no fluxo de ferro fundido no interior do planeta (é ele que cria o campo magnético da Terra), o que levou a um enfraquecimento do campo magnético e sua reversão. No fim desse período, o fluxo se normalizou e o campo reverteu novamente, aumentou, e permanece como está hoje. Esse enfraquecimento do campo magnético para 6% do valor atual deixou nosso planeta exposto a uma grande quantidade de raios cósmicos por 510 anos. 

E foi a radiação que destruiu parte da camada de ozônio, aumentou a quantidade de raios ultravioleta, e consequentemente causou grande mudança climática. Na Austrália, e em outros locais, isso provocou a extinção de muitas espécies, talvez tenha colaborado para o fim dos Neandertais e talvez tenha levado os nossos ancestrais às cavernas, onde registraram sua arte.

Os argumentos apresentados no trabalho são muito sólidos e permitem relacionar muitos eventos. É claro que essas relações serão testadas e investigadas, mas talvez essa descoberta seja tão importante para nossa história como a queda do meteoro no México (aquele responsável pelo desaparecimento dos dinossauros) foi para os mamíferos. 

Com o desaparecimento dos dinossauros, os mamíferos prosperaram - e entre eles a nossa espécie. É uma descoberta fascinante que demonstra que as mudanças climáticas também ocorrem sem que a causa seja a atividade dos seres humanos.

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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