Cognitive Research
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Estudo mostra que árbitros da elite do futebol conseguem 'prever' faltas

Experimento provou que juízes que apitam jogos profissionais têm percepção visual mais avançada e antecipam foco na zona de contato entre jogadores

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2016 | 20h30

Os árbitros de alto nível do futebol profissional desenvolvem uma percepção visual melhorada que permite "prever" onde ocorrerá uma falta, de acordo com um novo estudo. A pesquisa, realizada por cientistas do Reino Unido e da Bélgica, foi publicada nesta segunda-feira, 31, na revista científica Cognitive Research.

Segundo o estudo, graças à sua percepção visual avançada, os árbitros de elite têm uma tendência maior a prever e observar zonas de contato entre os jogadores, o que lhes permite um índice de acerto maior que o dos árbitros de categorias inferiores.

Os cientistas realizaram um experimento com 39 árbitros, sendo 20 da divisão principal e da segunda divisão do futebol da Bélgica e outros 19 de ligas amadoras - que têm experiência no apito, mas nunca atuaram em jogos profissionais. Todos os árbitros analisaram vídeos encenados que mostravam faltas sendo cometidas a partir do ponto de vista do juiz no campo de futebol. 

Os pesquisadores utilizaram tecnologias de rastreamento do olhar para avaliar o comportamento de "busca visual" dos árbitros - isto é, por quanto tempo e em que pontoos olhos do juiz estavam fixos no momento da falta ao assistir aos vídeos.

"Nossos resultados mostram que os árbitros de elite têm padrões de comportamento de busca visual que os tornam melhores para avaliar situações de falta, em comparação aos árbitros das ligas inferiores", disse um dos autores principais do estudo, Werner Helsen, da Universidade de Louvain (Bélgica).

"Quando estão observando uma falta sendo cometida em uma situação real de jogo, os árbitros de elite passam mais tempo com o olhar fixo na parte do corpo envolvida na falta que em outras áreas. Isso sugere que eles ficam focados na informação mais crucial em seu campo de visão, o que melhora sua capacidade de interpretar a jogada", declarou Helsen.

Segundo Helsen, a capacidade dos árbitros de elite para "prever" onde ocorrerão as faltas tem relação com sua capacidade de focar nas zonas de contato entre os jogadores.

 

"Vimos muito claramente que os árbitros de elite antecipam a jogada de uma maneira muito eficiente, conseguem prever onde o contato acontecerá e focam a atenção nessa zona de contato. Os árbitros menos experientes ficam muito mais distraídos por outras coisas que estão acontecendo em campo", explicou Helsen.

O comportamento de busca visual é a principal competência utilizada por atletas profissionais para coordenar as funções de percepção e cognição com as capacidades motoras, segundo os autores do estudo. Eles afirmam que os árbitros também contam fortemente com o comportamento de busca visual a fim de traduzir rapidamente aquilo que estão vendo em decisões corretas, considerando as regras do jogo.

Quando os cientistas pediram aos árbitros para definir se uma falta cometida em jogo mereceria uma sanção disciplinar - isto é, nenhum cartão, cartão amarelo ou cartão vermelho -, os juízes da divisão de elite tomaram a decisão correta em 61% dos casos. Entre os árbitros das ligas não-profissionais, a taxa de acerto foi de 45%.

"O comportamento de busca visual é uma função cognitiva inerente que pode ser aprimorada pelo treino e pelo desenvolvimento. Compreender exatamente o que faz os árbitros de elite serem capazes de tomar melhores decisões que os árbitros de ligas inferiores poderá ajudar a imaginar programas de treinamento específicos para aprimorar o comportamento de busca visual", disse o outro autor principal do estudo, Jochim Spitz, do Laboratório de Percepção e Performance da Universidade de Louvain.

Os vídeos utilizados no estudo foram gravados com o auxílio de jogadores de futebol profissionais, com idades de 19 a 21 anos, que foram orientados a simular uma variedade de jogadas de falta, incluindo faltas com bola rolando e em cobranças de escanteio.

A ação foi filmada a aproximadamente 10 metros de distância, a fim de simular a proximidade do árbitro durante uma situação real de jogo. Para dar às simulações o máximo de naturalidade, não foram dadas instruções aos jogadores em relação ao tipo de falta que deveria ser cometida. Um total de 20 vídeos foram produzidos, sendo 10 em situações de bola rolando e 10 em situações de cobrança de escanteio.

Olhar atento. Nos cenários de bola rolando e cobrança de escanteio, não houve diferença em relação aos locais nos quais os árbitros focavam quando assistiam os vídeos. No entanto, houve uma diferença importante: os árbitros de elite gastaram mais tempo que os de divisões inferiores fixando a zona de contato entre o atacante e o defensor.

Analisando os dados coletados sobre as decisões incorretas tomadas pelos árbitros, os cientistas concluíram que o tempo de fixação tem um papel importante na tradução de incidentes percebidos em interpretações corretas de acordo com a regra do jogo.

"Nós podemos especular, a partir dos nossos resultados, que o nível de experiência dos árbitros de elite se traduziu em memória de longo-prazo, o que torna seu comportamento de busca visual fundamentado em conhecimento adquirido. Os árbitros de divisões inferiores, por outro lado, têm menos experiência e parecem aplicar um controle da fixação visual mais aleatório", explicou Helsen.

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