Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Estudo mostra que convivência com humanos alterou a estrutura cerebral de cães

Pesquisa publicada no Journal of Neuroscience constatou como o cruzamento seletivo das raças acabou moldando o cérebro daquele que é conhecido como melhor amigo do homem

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 17h41

Correções: 03/09/2019 | 18h05

RIO DE JANEIRO -  Nos pelo menos 15 mil anos em que convivemos com os cachorros, conseguimos transformar lobos selvagens em nossos melhores amigos. E dos mais variados tamanhos: do pequeniníssimo pinscher ao gigantesco dog alemão. Agora, um novo estudo revela que a mudança foi ainda mais profunda do que as aparências sugerem. Os homens alteraram também a estrutura cerebral dos cães.

Dona de dois pastores australianos hiperativos, a neurocientista da Universidade de Harvard Erin Hecht decidiu comparar os exames de ressonância magnética de 62 cachorros de 32 raças diferentes. “Assim que vi todas as imagens alinhadas, o resultado saltou aos olhos”, afirmou a pesquisadora. Embora os animais apresentassem uma grande variedade de formatos e tamanhos de cabeça nenhuma dessas diferenças seria capaz de explicar as imagens cerebrais.

Erin Hecht e colegas identificaram seis regiões cerebrais que tendem a ser maiores ou menores dependendo do cachorro e que atuam de forma sincronizada. O padrão levou a pesquisadora a se perguntar se as regiões funcionariam em conjunto de acordo com diferentes comportamentos e se estes estariam relacionados às raças. Beagles, por exemplo, são capazes de identificar, pelo olfato, tumores cancerígenos. Border collies, por sua vez, conseguem pastorear ovelhas com incrível agilidade.

Os cientistas decidiram, então, pesquisar como as seis regiões cerebrais diferiam de acordo com as características principais de cada raça, segundo a definição do American Kennel Club. A pesquisa foi publicada na “Journal of Neuroscience”.

Boxers e dobermanns, por exemplo, que são muitas vezes usados pela polícia, revelam diferenças significativas em relação a outras raças no que diz respeito a olfato e visão. Raças criadas para a prática de esportes, por outro lado, têm uma rede cerebral com destaque maior para regiões responsáveis por medo, estresse e ansiedade.

Os cientistas conseguiram determinar padrões cerebrais diferentes entre cachorros que caçam com base no olfato e aqueles que contam mais com a visão para capturar uma presa. Todos os cães examinados no estudo eram animais de estimação, não de trabalho. “É impressionante que a gente tenha constatado todas essas diferenças mesmo em cães que não estão sendo usados para essas atividades”, disse a pesquisadora.

Para a neurocientista, as descobertas podem ter implicações ainda mais profundas. O fato de sermos capazes de alterar uma espécie com a qual convivemos a tal ponto de afetar sua estrutura cerebral é algo a ser sempre levado em conta. “Acho que é um chamado à responsabilidade sobre o que estamos fazendo e também sobre como estamos tratando os animais ”, disse a cientista.

Correções
03/09/2019 | 18h05

Diferentemente do publicado, a humanidade convive com cachorros há pelo menos 15 mil anos, e não mil anos, como publicado na primeira versão da reportagem. 

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