Reuters
Reuters

Estudo mostra que 'obesidade saudável' pode ser um mito

Anomalias na expressão genética da gordura de obesos considerados metabolicamente saudáveis são semelhantes às dos que podem ter problemas

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2016 | 13h00

SÃO PAULO - A "obesidade saudável" pode ser um mito. Um novo estudo realizado por cientistas da Suécia aponta que a gordura de pessoas obesas - mesmo aquelas que são consideradas metabolicamente saudáveis - apresenta mudanças anormais em sua expressão genética na resposta à estimulação por insulina. 

Embora desde os anos 1990 tenha se mostrado que cerca de 30% das pessoas com obesidade têm perfil metabólico e cardiovascular saudável, o novo estudo alerta que eles não estão excluídos das intervenções recomendadas contra a obesidade.

O estudo, publicado nesta quinta-feira, 18, na revista científica Cell, foi feito por pesquisadores do Instituto Karolinska - célebre por promover o Prêmio Nobel - sob a coordenação de Mikael Rydén.

"A descoberta sugere que vigorosas intervenções de saúde podem ser necessárias para todos os indivíduos obesos, mesmo aqueles que até agora tenham sido considerados metabolicamente saudáveis. Como a obesidade é um dos principais fatores que alteram a expressão genética do tecido adiposo (gordura), nós devemos continuar a focar na prevenção à obesidade", declarou Rydén.

Segundo Rydén, a obesidade atingiu proporções epidêmicas globais, afetando aproximadamente 600 milhões de pessoas em todo o mundo e aumentando consideravelmente o risco de doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, câncer e diabete tipo 2.

Desde a década de 1940, os cientistas acumularam cada vez mais evidências de que haja uma ligação entre a obesidade e as doenças metabólicas e cardiovasculares. Mas, nas décadas de 1970 e 1980, alguns especialistas começaram a questionar em que extensão a obesidade aumenta de fato esses problemas de saúde. Depois, no fim da década de 1990, novos estudos começaram a mostrar que alguns indivíduos obesos apresentavam um perfil metabólico e cardiovascular saudável.

De acordo com Rydén, estimativas recentes sugerem que até 30% das pessoas obesas sejam metabolicamente saudáveis, indicando que eles precisariam de intervenções menos vigorosas para prevenção das complicações relacionadas à obesidade.

Segundo ele, uma das marcas da obesidade metabolicamente saudável é a alta sensibilidade ao hormônio insulina, que promove a captação da glicose do sangue pelas células para ser usada como energia.

No entanto, segundo Rydén, atualmente não há critério amplamente aceito para identificar a obesidade metabolicamente saudável e, por isso, é impossível saber se tal condição existe mesmo ou não. Para tentar responder a essa pergunta, Rydén, Carsten Daub e Peter Arner - todos do Instituto  Karolinska - avaliaram a resposta à insulina em 15 pessoas saudáveis que nunca foram obesas e 50 pessoas obesas inscritas para uma cirurgia de redução de estômago.

Os cientistas coletaram biópsias do tecido de gordura abdominal antes e depois de sessões de duas horas de infusão intravenosa de insulina e glicose. Com base na taxa de captação de glicose, os pesquisadores classificaram 21 indivíduos obesos como sensíveis à insulina e outros 29 como resistentes à insulina.

O sequenciamento genético das amostras de tecido de gordura revelaram uma clara distinção entre os participantes que nunca foram obesos e os que pertenciam aos dois grupos de pessoas obesas. A gordura dos resistentes à insulina e dos sensíveis à insulina apresentou padrões praticamente idênticos de expressão genética na resposta à estimulação por insulina.

"Nosso estudo sugere que a noção de obesidade metabolicamente saudável pode ser mais complexa do que se pensava, pelo menos no que se refere ao tecido adiposo subcutâneo", afirmou Rydén. "Não parece haver uma marca clara que diferencie os indivíduos obesos com alta ou baixa sensibilidade à insulina. Isso indica que a obesidade em si é o principal fator que explica as mudanças na expressão genética."

Cuidados. Mesmo sem ter problemas de saúde, o engenheiro Douglas Braga, de 33 anos, resolveu emagrecer. Com 1,72 metro, ele estava com 83 kg e isso começou a incomodá-lo. Há duas semanas, começou a fazer parte do Vigilantes do Peso e já perdeu 5 kg.

"Eu já me sinto mais confiante. Cheguei a ficar sem querer sair quando amigos me chamavam para a balada, negava convites para praia e piscina. Estou com uma sensação maior de amor próprio. A autoestima é uma ferramenta de sobrevivência."

Presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a médica endocrinologista Cintia Cercato diz que a pessoa não deve esperar ficar obesa para iniciar os cuidados.

"O ideal é identificar o mais rápido possível. As pessoas precisam se tratar para evitar que a obesidade evolua e se torne mais grave. A pessoa tem de buscar tratamento se sente dores articulares, nota um aumento na gordura abdominal e apresenta gordura no fígado."

Mais conteúdo sobre:
Suécia

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.