Estudo polêmico identifica padrões de deslocamento humano

Pesquisadores dos EUA rastrearam cerca de 100 mil usuários de telefones celulares sem seu consentimento

Agências Internacionais,

04 de junho de 2008 | 17h21

Pesquisadores norte-americanos rastrearam cerca de 100 mil usuários de telefones celulares em busca de um padrão para os deslocamentos humanos. Sua principal conclusão foi que a maior parte das pessoas se desloca apenas pequenas distâncias no dia-a-dia, além de ir aos mesmos lugares repetidas vezes. O estudo foi realizado pela Universidade Northeastern, de Boston, e publicado na última edição da revista Nature. Segundo pesquisadores, esse tipo de mapeamento não consensual fornece informações importantes sobre padrões de comportamento individual - dificilmente conseguidas por outros meios - que podem ajudar no controle de doenças contagiosas e no planejamento do tráfego urbano, por exemplo.  Segundo o Yahoo News, embora tenha potencial para uma série de melhorias, esse tipo de uso de informação confidencial envolve questões polêmicas de privacidade e ética, além de ser proibido em muitos países, como nos Estados Unidos e na Alemanha. Método  O estudo se baseou em informações de celulares de uma companhia que, assim como o país pesquisado, não pode ser revelada. Segundo o Yahoo News os cientistas apenas se referiam à localização como um país industrializado.  Para marcar as localizações, os pesquisadores relacionavam cada indivíduo a uma torre de transmissão de sinal telefônico(e não a uma localização exata, para preservar a privacidade dos usuários) cada vez que eles recebiam uma ligação ou mensagem de texto. Os registros foram feitos durante seis meses.  O co-autor do trabalho, Cesar Hidalgo, disse ao Yahoo que ele e seus colegas não conheciam cada número de telefone individual, pois eles foram disfarçados em códigos de 26 dígitos.  Resultados Albert-László Barabási, autor principal do estudo, disse à Nature que os resultados foram surpreendentes. Diferentemente dos estudos anteriores, esse novo trabalho comprova que os seres humanos são criaturas de hábito. A maior parte realiza viagens regulares entre o local de trabalho e moradia, eventualmente intercalando-as com saídas mais longas. Segundo a Nature, embora esses padrões possam soas óbvios, esse tipo de informação detalhada, raramente conseguida por cientistas, oferece muitas oportunidades de estudo de padrões de movimento. "Nós realmente não sabemos como os seres humanos se movem", disse Barabási. "É estranho ver tais regularidades matemáticas em comportamentos tão complexos", disse Brockmann, autor de outro estudo sobre mobilidade.  Controvérsia Esse tipo de registro não consensual seria ilegal nos Estados Unidos, disse Rob Kenny, porta-voz da Federal Communications Commission, ao Yahoo News. No entanto, o rastreamento consensual, além de legal, é vendido como produto especial pelas empresas de telecomunicações.  Barabasi disse que não checou a possibilidade de realização do estudo com nenhum painel de ética, segundo o Yahoo News. Se tivesse feito isso, talvez tivesse tido problemas, disse Arthur Caplan, da Universidade de Pennsylvania.  Segundo o cientista, estudos feitos em lugares públicos são "jogo limpo para pesquisadores" com a condição que nenhuma identidade seja revelada. "Mas celulares não são públicos. Meu celular é pessoal. Rastreá-los sem o conhecimento de seu proprietário é uma invasão de privacidade." Paul Stephens, diretor do Privacy Rights Clearinghouse em San Diego, disse ao Yahoo News que a parte não consensual do estudo levanta a questão do "Big Brother". "Pessoas que não querem ser rastreadas não devem ser rastreadas", afirmou.  Co-autor do estudo, Hidalgo defendeu a pesquisa dizendo ao Yahoo News que há diferenças entre ser estudado individualmente e fazer parte de uma estatística. "Nas mãos erradas esses dados poderiam ser mal usados", disse, "mas nas mãos de cientistas eles servem apenas para buscar padrões de comportamento. Estamos tentando fazer o mundo um pouco melhor." Outros estudos Tentativas de rastrear a movimentação humana não são recentes. Outros estudos já tentaram encontrar padrões nos deslocamentos acompanhando o movimento de notas de um dólar, por exemplo.  No entanto, o dinheiro muda de mãos muito rapidamente, não oferecendo uma visão de deslocamentos individuais precisa.

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