Nature / Divulgação
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Estudo prova ser possível criação de vacina anticâncer

Para combater os tumores, estratégia aciona os mecanismos do sistema imunológico que normalmente são usados pelo organismo contra infecções virais; estudo foi publicado na Nature

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

03 Junho 2016 | 19h18

Cientistas da Alemanha e Holanda descreveram uma nova estratégia de vacinação contra o câncer capaz de atacar os tumores colocando em ação mecanismos do sistema imunológico que normalmente são usados pelo organismo contra infecções virais. 

O estudo, publicado esta semana na revista Nature, mostra que a vacina induziu o sistema imunológico a responder contra tumores em camundongos e em três pacientes humanos com melanoma avançado. Segundo os autores, a estratégia poderá ser usada, no futuro, para desenvolver uma vacina universal para tratamento imunoterápico de câncer.

A vacina se baseia em nanopartículas de RNA tumoral, isto é, os cientistas injetaram nos pacientes moléculas de RNA do tumor criadas em laboratório e envoltas em uma membrana de gordura. As nanopartículas carregam o RNA tumoral diretamente para as células dendríticas - os glóbulos brancos que protegem o corpo de micróbios invasores. 

Depois de entrar nas células, as nanopartículas liberam o RNA tumoral, que funciona como um antígeno, ou seja, dispara o mecanismo que normalmente defende o corpo humano de invasões virais. Como o RNA é de um tumor, no entanto, essas defesas do corpo são redirecionadas para identificar e atacar as células tumorais.

De acordo com um dos autores do estudo, Ugur Sahin, da Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha, como quase todo antígeno com base em proteína pode ser codificado por RNA, a estratégia poderia ser utilizada para diferentes tipos de câncer. 

"Essas vacinas têm produção rápida e barata. Virtualmente, qualquer antígeno de tumor pode ser codificado por RNA. Assim, a abordagem de imunoterapia com nanopartículas de RNA pode ser vista como uma nova classe de vacinas universalmente aplicáveis para a imunoterapia do câncer", afirmou Sahin.

Segundo os autores, se o RNA tumoral fosse administrado diretamente, a molécula acabaria sendo destruída pelo organismo antes de cumprir sua missão, por isso ele é protegido pelas nanopartículas. 

Os pesquisadores descobriram que, ao ajustar a carga elétrica das nanopartículas, tornando-a levemente negativa, elas se encaminham diretamente às células dendríticas no baço, nos gânglios linfáticos e na medula óssea, onde o RNA é traduzido em um antígeno específico para o câncer. Esse antígeno aciona um grupo específico de glóbulos brancos - as células-T, que induzem células tumorais à autodestruição.

Resultados. De acordo com Sahin, o objetivo do estudo não era testar o funcionamento da vacina, mas apenas a eficácia da técnica. No estudo, três pacientes receberam baixas doses da vacina. Todos tiveram uma reação de seu sistema imune, mas não há provas de que o câncer tenha desaparecido.

Um dos pacientes teve reduzido o tamanho de um tumor nos gânglios linfáticos depois da administração da vacina. Outro paciente, cujos tumores haviam sido removidos por cirurgia, ficou livre do câncer sete meses após a vacinação. O terceiro paciente tinha oito tumores que se espalharam pelos pulmões a partir de um câncer de pele inicial. Os tumores permaneceram estáveis, segundo o estudo.

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