ALINE GHILARDI
ALINE GHILARDI

Estudo revela animal que viveu há 140 milhões de anos na região de Araraquara

Batizado de Aracoaraichnium leonardii, em homenagem à cidade, animal seria semelhante aos mamíferos atuais do tamanho de um cão de pequeno porte

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2017 | 07h00

SOROCABA – Nova análise das pegadas encontradas nos arenitos da Formação Botucatu, em Araraquara, revelaram um segundo animal vivendo nessa região durante a “era dos dinossauros”, há 140 milhões de anos. A pesquisa de doutorandos da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) constatou que nem todas as pegadas eram do Brasilichnium, o mamífero de pequeno porte que viveu nessa região, como se acreditava. Parte dos rastros foi produzida por um animal possivelmente maior, batizado de Aracoaraichnium leonardii, até então desconhecido e que pode ter servido de alimento a dinossauros carnívoros. O nome homenageia a cidade de Araraquara e o padre paleontólogo Giuseppe Leonardi, pioneiro nas “caçadas” aos fósseis de dinossauros na região.

As pegadas encontradas nos arenitos de Botucatu – antigo deserto de dunas que existiu na Era Mesozoica, cobrindo grande parte dos atuais continentes da América do Sul e da África – já eram conhecidas dos cientistas há vários anos. Porém, o estudo da Ufscar fez uma nova análise e as comparou com outros rastros de fósseis do mundo todo. Os pesquisadores descobriram diferenças entre elas que sugerem terem sido feitas por dois animais distintos. As pegadas com as diferenças analisadas pertencem a um animal semelhante aos mamíferos atuais do tamanho de um cão de pequeno porte que viveu nesse deserto. O autor das pegadas seria o Aracoaraichnium.

O trabalho foi conduzido pelo doutorando Pedro Victor Buck, com orientação do docente Marcelo Adorna Fernandes, do Departamento de Biologia e Ecologia Evolutiva da Ufscar, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Os arenitos analisados, muito explorados no interior paulista como pedras ornamentais, são reconhecidos por cientistas do mundo todo pela preservação de pegadas de dinossauros e outros organismos extintos que viveram na era dos dinossauros.

Muitas dessas pegadas foram recuperadas em calçamento de cidades, como Araraquara, e depositadas no Laboratório de Paleoecologia e Paleicnologia (LPP) da Ufscar. Além dessas lajes, os pesquisadores analisaram também pegadas depositadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro, concluindo pela diferença entre elas.

“Quando as pegadas de Aracoaraichnium e de Brasilichnium são comparadas, elas apresentam formato oval bastante similar. Porém, quando são comparados os dedos preservados nas pegadas, eles apresentam diferenças suficientes para mostrar que as pegadas foram produzidas por espécies de animais distintas”, explica Buck.

Outras evidências reforçam a interpretação de duas espécies, como a inexistência de pegadas intermediárias, diminuindo a chance de indivíduos mais velhos ou maiores da mesma espécie, e os rastros deixados na locomoção desses animais. “As pistas atribuídas a Aracoaraichnium mostram que a espécie apresentava passada mais curta, quando comparada com as do Brasilichnium”, explica Aline Ghilardi, pós-doutorando que participou da pesquisa. Isso permite concluir que o primeiro animal tinha membros mais curtos em relação ao corpo.

Essas pegadas são os únicos registros até agora obtidos desses animais para o Cretáceo brasileiro. De acordo com os responsáveis pelo trabalho, a nova espécie provavelmente era insetívora, alimentando-se de aracnídeos e insetos que viviam no antigo deserto, e, por outro lado, servia de alimento para os dinossauros carnívoros que habitavam a região. Um artigo sobre o estudo foi publicado, no último dia 21, na revista Palaeoegography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, que tem grande impacto na área de Paleontologia. Além de Buck e Ghilardi, são autores Luciana dos Reis Fernandes, técnica do LPP, e Marcelo Adorna Fernandes.

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