EUA acham injusto acordo de Kyoto

A decisão do governo norte-americano de não aderir ao Protocolo de Kyoto e de adotar medidas internas unilaterais em relação á redução das emissões dos gases do efeito estufa foi reiterada pelo subsecretário de Estado dos EUA, Seção de Oceanos e Assuntos Ambientais e Científicos Internacionais, John F. Turner, que participou, ontem, em São Paulo, do seminário "Pela Viabilidade do Desenvolvimento Sustentável". Realizado na Câmara Americana de Comércio de São Paulo (Amcham-SP), o evento teve o objetivo de estreitar o intercâmbio de informações entre Brasil e Estados Unidos, voltadas à Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10), que acontece em agosto em Joanesburgo, na África do Sul.Segundo Turner, os Estados Unidos optaram por não ratificar Kyoto por considerar que suas metas "não são baseadas em boa ciência e questionar seu impacto a longo prazo". Basicamente, o país não aceita o princípio de responsabilidade diferenciada do Protocolo, pelo qual países em desenvolvimento - como Brasil, Índia, China e México - não precisam diminuir suas emissões. "Acreditamos que alguns países seguirão Kyoto e outros adotarão a estratégia desenhada pelos EUA. Para tanto, estamos negociando agressivamente com vários países, como a China, para que se aliem aos Estados Unidos".O subsecretário disse que os EUA respeitam a decisão brasileira de adotar o Protocolo e que essa posição não impedirá parcerias entre os dois países em áreas de interesses comuns, como a energia renovável e o combate a doenças infecto-contagiosas. "Os Estados Unidos estão gastando mais do que qualquer outro país em pesquisas climáticas, como as relacionadas aos ciclos do carbono, o papel das florestas tropicais ou o uso mais limpo dos combustíveis existentes, e o Brasil é um parceiro tradicional".Para Turner, a adesão a um acordo internacional é uma decisão soberana de cada país, que deve analisar se o tratado se encaixa em seus interesses. "O Protocolo de Kyoto falhou ao isentar grande parte da população do mundo de obrigações com as reduções e por não reconhecer que o crescimento populacional e econômico dos EUA foi três vezes maior que o dos países Europeus".Prestes a aprovar no Senado a ratificação de Kyoto, o Brasil é um dos maiores defensores do tratado nos fóruns mundiais. "O governo brasileiro considera o Protocolo adequado para diminuir as emissões dos gases do efeito estufa e tem se empenhado para que entre em vigor. Para o Brasil, o ideal seria que todos os países, inclusive os Estados Unidos, ratificassem Kyoto", disse Everton Vargas, diretor geral do Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais do Ministério das Relações Exteriores.Na opinião de Vargas, porém, essa posição divergente não impede a colaboração entre os dois países. "O Brasil não tem metas de redução de emissões, pois sua prioridade, como país em desenvolvimento, é a erradicação da pobreza. Nosso interesse, porém, é crescer poluindo menos". Para ele, os investimentos do país em energia renovável são um exemplo dessa postura.O Protocolo de Kyoto é um tratado internacional que estabelece metas de redução de emissões de gases do efeito estufa, sobretudo o dióxido de carbono, para os países desenvolvidos. O aumento das emissões desses gases, principalmente no último século, é responsável pelo aumento da temperatura do planeta. Para entrar em vigor, precisa da ratificação de pelo menos 55 países, que representem no mínimo 51% das emissões globais. Como os EUA são responsáveis, sozinhos, por cerca de 25% dessas emissões, a sua não adesão é uma ameaça à viabilidade do Protocolo, mesmo com o compromisso de ratificação pela Comunidade Européia. O projeto americano de redução prevê um aumento de 18% na eficiência energética dos combustíveis nos próximos anos, mas com o crescimento da economia americana, o total de emissões do país pode aumentar mesmo que as metas sejam atingidas.

Agencia Estado,

15 de maio de 2002 | 09h02

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