EUA autorizam estudo em humanos com células-tronco embrionárias

Doze anos após o "nascimento" da primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas, na Universidade de Wisconsin, a Administração de Drogas e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) autorizou ontem que essas células sejam injetadas experimentalmente em seres humanos pela primeira vez.

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2010 | 00h00

O estudo será conduzido pela empresa de biotecnologia Geron, que financiou a pesquisa pioneira de Wisconsin, em 1998, e agora, após uma década de experimentos in vitro e com animais, poderá finalmente testar o potencial terapêutico de suas células no organismo humano. Trata-se do primeiro e único ensaio clínico com células-tronco embrionárias humanas aprovado no mundo até agora.

A empresa, com sede na Califórnia, vai recrutar até dez pacientes com lesões medulares para receber injeções de células nervosas progenitoras, produzidas pela diferenciação de células-tronco embrionárias humanas in vitro. A intenção é que essas células progenitoras, uma vez dentro da medula, se diferenciem em um tipo específico de célula do sistema nervoso central, chamada oligodendrócito, que reveste os nervos e permite a transmissão dos sinais elétricos enviados do cérebro para o restante do organismo.

Em experimentos com ratos lesionados, a técnica se mostrou eficaz, devolvendo parte dos movimentos e do controle motor e sensorial aos animais. O início dos testes em humanos já havia sido autorizado em janeiro de 2009, mas o aparecimento de cistos na medula de alguns dos animais tratados fez com que a FDA colocasse a autorização "em espera", até que a empresa pudesse investigar a questão. A Geron anunciou ontem que aperfeiçoou os protocolos de segurança relacionados à diferenciação das células, fez novos experimentos com animais e conseguiu, novamente, luz verde da FDA para seguir em frente com o ensaios clínicos em seres humanos.

"Há uma expectativa muito grande de toda a comunidade científica sobre esse projeto", disse ao Estado o médico Tarcísio Eloy Pessoa de Barros Filho, vice-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que pesquisa também o uso de células-tronco no tratamento de lesões medulares. "Os resultados com animais são muito interessantes."

Ele explica que muitas lesões medulares são caracterizadas pela deterioração dos oligodendrócitos, sem que haja necessariamente uma rompimento das fibras nervosas (chamadas lesões fechadas). Os oligodendrócitos formam as bainhas de mielina que encapam o nervos e funcionam como uma fita isolante sobre um fio elétrico. Sem elas, os impulsos nervosos não conseguem percorrer o nervo.

As células progenitoras desenvolvidas pela Geron não têm a capacidade de formar neurônios - apenas oligodendrócitos. Por isso, segundo a empresa, só serão admitidos no estudo pacientes com lesões fechadas, localizadas entre as vértebras torácicas T3 e T10. A aplicação das células progenitoras deverá ser feita, obrigatoriamente, entre 7 e 14 dias após a ocorrência da lesão.

"Se for uma lesão antiga, já cicatrizada, não vai funcionar", explica a pesquisadora Mayana Zatz, do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. O tratamento experimental de lesões recentes, segundo ela, é uma "faca de dois gumes". Por um lado, aumenta a chance de recuperação. Por outro, dificulta a interpretação dos resultados, pois "não há como saber como o paciente teria se recuperado sem as células-tronco".

Segundo a Geron, os testes serão feitos em diferentes hospitais e instituições, à medida que os pacientes forem selecionados. "Seja qual for o resultado, esse estudo será um divisor de águas para as células-tronco embrionárias", diz Stevens Rehen, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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