Euclides da Cunha pretendia ter uma ?versão verde? de Os Sertões

Por pouco a obra "Os Sertões", clássico brasileiro que completa cem anos em dezembro, ganha uma versão verde. O escritor Euclides da Cunha (1861-1909) tentou, nos últimos anos de vida, repetir o sucesso de sua primeira obra, ambientada no semi-árido nordestino, com um estudo sobre a natureza, os homens e a violência na ocupação da Amazônia. Os rascunhos do livro, interrompido com a morte dele em uma tragédia familiar, constam em obras completas, mas são pouco conhecidos e registram uma viagem de seis meses e meio pelos rios e povoados da região.Como engenheiro contratado pelo Itamarati para demarcar a fronteira com o Peru, Euclides decidiu contestar as lorotas envolvendo a selva que rodavam o mundo bem antes da globalização. Ao chegar a Manaus em dezembro de 1904, foi logo desmistificando a Amazônia relatada por exploradores e cronistas que haviam estado lá. Achou o cenário uma chatice. "Ao revés da admiração e entusiasmo, o que sobressalteia geralmente do Amazonas (...) é antes um desapontamento", inicia a primeira página do livro provisoriamente intitulado "Um Paraíso Perdido". O estudo sobre a visão européia de paraíso só seria retomado décadas depois com o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, pai de Chico Buarque.Sem texto final, a obra não passou de artigos na imprensa, cartas enviadas a amigos e documentos relatando a experiência de Euclides na região. Antes de publicar "Os Sertões", o escritor também havia divulgado textos esparsos. Nos escritos sobre a Amazônia, no entanto, saíram de cena os jagunços de Antônio Conselheiro para dar lugar a seringueiros, ribeirinhos e índios.Euclides da Cunha analisou as sandices patrióticas, as cobiças internacionais e, principalmente, os problemas enfrentados pela população. E, diante de tantas mazelas naturais e sociais, ele sentenciou que os caboclos da Amazônia eram antes de tudo "admiráveis".A visão que Euclides teve do sertão baiano, quando atuou como repórter do Estado na cobertura da Guerra de Canudos, em 1897, dita boa parte das descrições sobre o "inferno verde". "Não há leis. Cada um traz consigo o código penal no rifle que sobraça, e exercita a justiça a seu alvedrio, sem que o chamem a contas", disse ao traçar perfil de um criminoso peruano que conheceu.A terra ? A compreensão da terra, segundo Euclides, requer o "trato permamente de uma vida inteira". "A Amazônia recorda a genial definição do espaço de Milton. Esconde-se em si mesma. Ela só aparece aos poucos, vagarosamente, torturantemente", escreveu ao amigo Artur Lemos. Também não faltam contradições nos textos inacabados. Na busca da objetividade, o autor deixou escapar momentos de emoção ao relatar a viagem de barco pelo Rio Amazonas: "Salteou-me, afinal, a comoção que eu não sentira. A própria superfície lisa e barrenta era muito outra. Porque o que se me abria às vistas desatadas naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas lembrava uma página inédita do Gênese".Ao descrever a região, Euclides afirmou que a Amazônia talvez fosse a terra mais nova do mundo. O espaço teria surgido com a última convulsão geogênica que sublevou os Andes. Ele achou que a "terra sem história" também não possuía linha vertical. "O observador, em poucas horas, cede às fadigas de monotonia inaturável e sente que seu olhar, inexplicavelmente, se abrevia nos sem-fins daqueles horizontes vazios e indefinidos como os dos mares."Os anfíbios encontrados durante a viagem lhe causaram uma impressão "paleozóica" da fauna. Como a terra e os animais, a flora também foi vista como algo incompleto. "Quem segue pela mata, vai com a vista embotada no verde-negro das folhas; e ao deparar, de instante em instante, os fetos arborescentes emparelhando na altura com as palmeiras (...), tem a sensação angustiosa de um recuo às mais remotas idades, como se rompessem os recessos de uma daquelas mudas florestas carboníferas desvendadas pela visão retrospectiva dos geólogos."O Homem ? Ao conhecer e conversar com moradores das margens dos rios, Euclides fez perfis de pessoas que o fascinaram. O velho João Amarelo, que fundou o povoado de Cataí, foi um dos retratados. Ele levava "sem titubear, pelos torcicolos das ´estradas´, os seus setenta anos trabalhados". Já Antônio Dourado, da Terra Alta, era "impecável atirador de rifle, cujos lances de ousadia nas arrancadas de 1903, com os caucheros, são uma página vibrante de bravura." O Brasil das grilagens de terra e desvios de recursos em órgãos como a extinta Sudam, envolvendo senadores e deputados, pouco difere do país visto por Euclides da Cunha. "A propriedade mal-distribuída, ao mesmo passo que se dilata nos latifúndios das terras que só se limitam, de um lado, pela beirada dos rios, reduz-se economicamente nas mãos de um número restrito de possuidores", salientou. "O Homem mata o homem como o parasita aniquila a árvore."A análise desconcertante vai além. "No Amazonas, acontece, de feito, hoje, esta cruel antilogia: sobre a terra farta e a crescer na plenitude risonha da sua vida, agita-se, miseravelmente, uma sociedade que está morrendo", escreveu. A descrição do trabalho nos seringais só não é mais atual pelo fato de o setor da borracha no Amazonas ter ido à bancarrota nas últimas décadas. O escritor chega a somar as dívidas de migrantes nordestinos que tentaram a sorte na região para provar que havia trabalho escravo. "Enquanto o colono italiano se desloca de Gênova à remota fazenda de São Paulo, paternalmente assistido pelos nossos poderes públicos, o cearense efetua, à sua custa e todo em todo desamparado, uma viagem mais difícil."O escritor comparou cada igarapé a um Ganges pestilento e lúgubre ao descrever as comunidades ribeirinhas. Os textos sobre as condições de vida na Amazônia, publicadas em jornais da época, causaram espantos na imprensa e na política brasileiras. O presidente Afonso Pena acabou chamando Euclides para administrar o Acre. Era uma forma cômoda de dizer que a Amazônia não era problema do governo.O repórter Leonencio Nossa, da Agência Estado, está acompanhando uma expedição de 105 dias da Funai, ao Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, em busca de índios isolados. Veja o especial Em Busca de Povos Desconhecidos

Agencia Estado,

28 de junho de 2002 | 12h41

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