Evolução é acaso?

Já é possível investigar se transformação dos seres vivos é probabilística ou determinística

Fernando Reinach*, colunista

17 Fevereiro 2018 | 05h00

Em 1989, Stephen Jay Gould propôs um experimento imaginário que agora se tornou possível. Imagine fazer o planeta Terra voltar no tempo. Como um filme que volta para a primeira cena, nosso planeta voltaria a ser como era na época em que a vida surgiu, bilhões de anos atrás. Após ter voltado o filme, imagine que você aperta "play" novamente. O que aconteceria? Será que a evolução dos seres vivos se repetiria como ocorreu nos últimos bilhões de anos e tudo voltaria a ser como é hoje ou os seres vivos que surgiriam nesse "replay" seriam totalmente diferentes? Gould propôs que, cada vez que o filme reiniciasse, a história da vida na Terra transcorreria de modo diferente.

Ele acreditava que o processo de evolução por seleção natural é probabilístico e não determinístico. São conceitos fáceis de entender. Se você soltar dez vezes uma bola, ela sempre vai cair no chão da mesma maneira. Isso se deve ao fato de que a lei da gravidade, que descreve a queda dos objetos, é determinística. Agora, se você colocar dez bolas de cores diferentes dentro de um saco preto e for tirando uma de cada vez, vai observar que a ordem em que retira as bolas varia a cada tentativa. Isso porque a lei que descreve a retirada das bolas é probabilística.

Se Gould estiver certo, e a evolução for um processo probabilístico, então George Lucas se enganou ao criar os personagens de Star Wars. No filme, os seres vivos inteligentes, vindos dos mais distantes rincões da galáxia, são todos semelhantes a seres humanos: andam eretos, possuem cabeça, braços e pernas. Podem ser peludos ou cabeçudos, mas se parecem com seres humanos. Os animais e as plantas também lembram os que habitam a Terra. É como se a evolução dos seres vivos em cada um desses planetas imaginários tivesse repetido aproximadamente o que ocorreu na Terra nos últimos bilhões de anos. Na imaginação de George Lucas, a evolução é um processo determinístico. Agora, se Gould estiver certo, e o processo for probabilístico, os seres vivos de outros planetas seriam tão diferentes que é difícil imaginar que seremos capazes de prever sua forma ou funcionamento.

Esse problema deixou de interessar somente os especialistas uma vez que nos últimos anos foram descobertas dezenas de planetas semelhantes à Terra girando em volta de estrelas espalhadas pela Via Láctea. Os cientistas agora acreditam que as condições que levaram ao surgimento da vida na Terra (água, ar, luz e composição química) existem em milhões de outros planetas. Por esse motivo é provável que o "filme" da evolução de seres vivos esteja se desenrolando simultaneamente em milhares de planetas na nossa galáxia. Infelizmente, ainda não podemos ir lá para ver o que esta acontecendo.

Mesmo sem viagens interplanetárias, hoje é possível investigar se a evolução é regida pelo acaso probabilístico ou pela necessidade determinística. Na época de Darwin acreditava-se que a evolução seria tão lenta que dificilmente poderia ser observada pelos seres humanos, muito menos manipulada experimentalmente. Nos últimos anos isso mudou. Cientistas demonstraram que é possível observar a evolução em ação ao longo de períodos de tempo relativamente curtos, como anos ou décadas. 

E com essa descoberta surgiu um novo campo de pesquisa: o estudo experimental da evolução. E o principal problema investigado é exatamente a natureza determinística ou probabilística do processo evolutivo. 

Cientistas que compararam a evolução de peixes em lagos com ou sem predadores descobriram que, na presença de predadores, as cores dos machos são menos intensas (não dá para dar bandeira). E mais: introduziram os predadores em lagoas sem predadores e observaram a evolução das cores. Fazendo o experimento em muitos lagos é possível saber se em todos eles as mudanças ocorrem da mesma maneira (modelo determinístico) ou em cada lago a evolução toma direções distintas (modelo probabilístico). 

Dezenas de experimentos dessa natureza estão descritos em um novo livro de J.B. Losos, um professor de Harvard. Pena que o espaço aqui não permite que eu conte os resultados. Fica para a próxima semana.

Mais informações: Improbable destinies. fate, chance, and the future of evolution. Jonathan B. Losos. Riverhead Books, 2017

*Fernando Reinach é biólogo

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