Evolução, parte 1: de ameba e macaco, todos têm um pouco

Imagine só: Se você já acha difícil acreditar que é parente do macaco, escuta essa então: não é só o macaco, não! Todos os seres vivos do planeta fazem parte da sua família. As formigas, os tomates, os pepinos, os lagartos, as cobras, as baleias ... Enfim, todo mundo!    Inclusive as bactérias, as amebas e as minhocas, antes que eu me esqueça.   Essa é a  conclusão inescapável da teoria da evolução por seleção natural, com a qual Charles Darwin e Alfred Russel Wallace nos brindaram 150 anos atrás, em 1º de julho de 1858. Todos nós, animais, plantas, fungos e micróbios, evoluímos de um mesmo ser primordial, originado alguns bilhões de anos atrás, nos primórdios do planeta Terra.   Ou seja, se você desenhar a árvore genealógica de todas as espécies que existem ou já existiram no planeta, todas elas vão terminar em um mesmo ponto - uma raiz muito, muito profunda, habitada por um organismo muito, muito simples, mas que descobriu a fórmula da vida e nunca mais a abandonou.   A teoria de Darwin e Wallace nos diz que cada indivíduo, cada animal, cada planta e cada micróbio nasce um pouquinho diferente do outro, e que as espécies surgem e evoluem a partir da seleção natural daqueles que, graças a essas pequenas modificações aleatórias, são mais aptos a sobreviver e se reproduzir do que os outros, de acordo com as condições ambientais do momento.   O exemplo mais óbvio disso está bem na nossa cara e debaixo dos nossos narizes: todo ser humano é um pouco diferente do outro, apesar de sermos todos da mesma espécie.   Imagine, por exemplo, que a vida é um jogo de basquete e que aqueles que sobrevivem (ou seja, que são selecionados) são os indivíduos capazes de fazer mais cestas. Se o seu time é formado por uma população heterogênea, os jogadores que são mais altos, têm braços mais longos ou conseguem pular mais alto são aqueles que vão se sair melhor, naturalmente, enquanto os mais baixinhos serão lentamente deixados no banco e eliminados do time, ao longo do campeonato.   Agora imagine que o seu time migre para uma outra região, com condições ambientais e geográficas diferentes, onde o esporte da vida é o futebol em vez do basquete. Agora, são os grandalhões que estão em desvantagem! No campo de grama, quem vai ser selecionado pela evolução são os jogadores de tamanho médio, mais leves, capazes de correr longas distâncias e com habilidade nos pés, em vez das mãos.   Por fim, algumas populações ficarão com a cara do Shaquile O’Neil e outras, com a cara do Kaká. Com tempo suficiente, os dois jogadores poderiam virar espécies completamente diferentes.   Os estágios iniciais da evolução da vida na Terra são ainda muito pouco entendidos, mas os cientistas propõem que tenha acontecido algo nessa linha. Imagine que uma forma primitiva de vida unicelular (muito mais simples do que uma bactéria moderna) surgiu em algum lugar do planeta, graças a uma combinação bem afortunada de moléculas orgânicas. Aí esse organismo começa a se multiplicar e se espalhar pelo planeta, ocupando ambientes cada vez mais diferenciados (com diferentes pressões seletivas), que fazem com que sua populações se transformem em espécies cada vez mais diferentes e mais complexas.   A evidência mais antiga de vida unicelular na Terra é de 3,8 bilhões de anos. Os organismos multicelulares só vão aparecer cerca de 1,2 bilhão de anos atrás (ainda na forma de algas), e os primeiros metazoários (animais multicelulares mais complexos, com tecidos especializados) só aparecem no registro fóssil por volta de 600 milhões de anos atrás. Ou seja, levou mais de 3 bilhões de anos para a evolução transformar algo parecido com uma bactéria em coisas semelhantes a um coral ou uma água-viva, e assim por diante. Os mamíferos só entram em cena uns 200 milhões de anos atrás e nós, Homo sapiens, somos praticamente uma espécie recém-nascida, com míseros 200 mil anos de idade.   Hoje, nós, as águas-vivas e os pepinos estamos em ramos muitos distantes na árvore da vida. Mas se você descer até as raízes, todos temos um ancestral comum.   Darwin e Wallace ainda não tinham ainda todas as peças do quebra-cabeça em 1858. Eles chegaram a suas conclusões com base apenas na observação da natureza e no estudo dos fósseis de espécies já extintas. Só isso já foi brilhante e bastante convincente, ou ninguém teria dado bola para eles! Hoje, 150 anos depois, continuamos sem conhecer todo o quebra-cabeça, mas pelo menos descobrimos uma nova peça importantíssima, que não estava disponível no século 19: a genética! É ela que nos dá a certeza, mais do que qualquer outra ferramenta científica, de que Darwin e Wallace estavam certos.   Mas isso eu explico na semana que vem.....   Pense nisso a próxima vez que alguém fizer pouco caso das amebas.

03 de julho de 2008 | 15h10

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