Evolução, parte 3: nem melhor nem pior, apenas diferente

Imagine só: Nós, Homo sapiens, adoramos pensar em nós mesmos como a espécie "mais evoluída" do planeta. Os seres mais inteligentes, mais modernos, mais versáteis e mais poderosos que a evolução já produziu. O que todo bicho gostaria de ser, se conseguisse.   Ok, não há dúvida de que somos os seres mais inteligentes do planeta. Nenhum outro bicho, pelo menos, é capaz de construir um computador e ler essas palavras que estou escrevendo. Mas que tal descermos do nosso pedestal antropocêntrico e olharmos a questão de um ponto de vista cientificamente mais humilde?   Ser mais inteligente não significa ser mais evoluído. Na verdade, nenhuma espécie é mais evoluída do que a outra. Cada bicho, cada planta e cada microrganismo está perfeitamente adaptado ao meio ambiente em que vive. Cada espécie é perfeitamente evoluída para o nicho que se propõe a ocupar na natureza.   Por exemplo: O golfinho, que é outro mamífero bastante inteligente, não é capaz de construir um computador. Mas coloque um ser humano debaixo da água e você vai ver que, no ambiente marinho, o golfinho é muito mais evoluído do que nós. Nem o nadador mais veloz do mundo, vestido com o maiô mais avançado do mundo, consegue nadar tão rápido quanto um golfinho – muito menos respirar debaixo d’água, diga-se de passagem.   Outro exemplo: Jogue um ser humano e um passarinho do alto de um precipício e veja quem sobrevive mais! Só nós somos capazes de construir pára-quedas, asas-deltas e aviões, mas só as aves são capazes de voar. Nesse aspecto, um sabiá é muito "mais evoluído" do que nós.   Também não conheço ninguém que consiga viver de luz solar, como fazem as plantas, por meio da fotossíntese – apesar de haver alguns malucos mentirosos por aí que dizem que conseguem. Enfim, acho que já deu para pegar a idéia.   Nenhuma espécie é "mais evoluída" do que a outra. Somos apenas diferentes. A evolução por seleção natural, como mostraram Charles Darwin e Alfred Russel Wallace 150 anos atrás (para concluir minha trilogia de artigos evolutivos), é o processo pelo qual os indivíduos mais adaptados de cada espécie são constantemente selecionados, por pressões naturais, ao longo do tempo e do espaço.   Cada espécie que existe hoje, portanto, foi selecionada naturalmente ao longo de milhares ou milhões de anos, porque os indivíduos que a compõem provaram ser os melhores adaptados para sobreviver nas condições a que foram submetidos. Caso contrário, não existiriam.   A evolução não pára nunca. Ela está acontecendo neste exato momento, mas é lenta demais para que possamos observá-la diretamente. Enxergamos apenas os resultados, que são as espécies à nossa volta.   Uma pergunta freqüente que se faz é: Se o homem evoluiu do macaco, por que os chimpanzés também não viraram seres humanos? Eu mesmo fiz essa pergunta alguns anos atrás ao professor Daniel Lieberman, especialista em evolução humana da Universidade Harvard. A resposta dele não poderia ter sido mais clara ou direta: "Ora, os chimpanzés estão felizes do jeito que são", disse.   Em outras palavras: os chimpanzés também evoluíram, tanto quanto o homem, só que para uma espécie diferente.   Vale ressaltar mais uma vez, como fiz na semana passada: O homem não evoluiu DO chimpanzé. O homem e o chimpanzé têm um ancestral comum (um primata), cujos descendentes formaram duas espécies diferentes.   O homem, devido a uma série de variações e pressões seletivas, deu no que deu. Uma dessas pressões teria sido a savanização das florestas africanas, nas quais nosso primatas ancestrais viviam, o que fez com que indivíduos capazes de caminhar de maneira mais ereta (para enxergar mais longe os predadores em campo aberto), mais veloz e por mais tempo (para fugir desses mesmos predadores e se locomover entre fragmentos florestais em busca de comida) fossem selecionados para sobreviver (como no jogo de basquete que eu usei como exemplo na semana retrasada).   Os chimpanzés ficaram na floresta. Estão lá até hoje, comendo suas frutinhas, "pescando" seus cupins, formando famílias e tentando manter distância dos seus parentes malucos, seres humanos.   Quem sabe com mais alguns milhões de anos, se não forem extintos por nós, eles evoluam para algo diferente. Nem melhor nem pior, apenas diferente.   Pense nisso.

17 de julho de 2008 | 16h38

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