Exames reforçam suspeita de contaminação em SP

Exames realizados em 28 moradores da Vila Carioca, na zona sul da capital paulista, reforça a suspeita de contaminação causada por produtos químicos armazenados no depósito da Shell Distribuidora localizado no bairro. Os exames detectaram a presença de metais pesados no organismo das pessoas examinadas acima de limites tolerados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), além de alterações no sistema hepático (fígado) e no sangue das pessoas.O resultado das análises foi divulgado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Postos de Combustível, na Câmara Municipal. Os exames foram cedidos gratuitamente pelos dois laboratórios, que examinaram o mesmo grupo selecionado na população que reside próximo ao depósito. Tratam-se de 20 pessoas que moram no Condomínio Auriverde, que fica ao lado do depósito, sete que moram na Rua Colorado e um na Rua Auriverde.De acordo com o trabalho realizado pelo Laboratório Abstratom Pesquisas e Análises, com amostras de sangue e cabelo, a maioria das pessoas apresentou concentração de metais pesados acima do tolerado pela OMS, como chumbo, alumínio, mercúrio e arsênico. O método utilizado foi a análise por ICP-MS (espectômetro de massa por plasma acoplado induzido), que mede a quantidade de metais no organismo."O número demonstra que há indícios de contaminação" explicou a técnica em laboratório do Abstratom, Bárbara Nivoloni. Segundo ela, o padrão utilizado foi a OMS e a média de metais pesados apresentados na população paulistana como um todo. "Todos nós apresentamos algum tipo de metal pesado, mas isso não compromete o organismo", disse. O número de pessoas comprometidas e a quantidade detalhada não foi revelada.No caso do Jablonka Centro de Diagnósticos e Análises Clínicas, foram examinadas 27 pessoas - uma pessoa do grupo não quis se submeter aos exames. Segundo o diretor-técnico do laboratório, Fernando Jablonka, a análise da urina e sangue dos moradores apontou problemas de fígado e na composição do sangue."Houve alterações no sistema hepático e no hemograma", disse. Ele citou alterações na composição dos glóbulos brancos e vermelhos dos atendidos. De acordo com os representantes dos dois laboratórios, ainda é prematuro relacionar o resultado com as possíveis causas da contaminação. "São necessários exames mais detalhados e o histórico de saúde de cada paciente", disse Jablonka. Ele lembrou, por exemplo, que um dos moradores pode ter trabalhado em atividades com produtos químicos. "Há um grande indício que a contaminação pode ter sido causada pela Shell, mas ainda é necessário avaliar cada caso", disse."Recebemos com cautela esses exames, mas a contaminação é um fato", afirmou o advogado da Sociedade Amigos Reviva a Vila Carioca, Paulo Brasil. Segundo ele, a associação vai estudar as medidas judiciais cabíveis.O presidente da CPI, vereador Jooji Hato (PMDB) afirmou que, diante dos resultados, as investigações sobre a Shell devem envolver outros setores do governo. "O governo estadual e a União tÊm de nos ajudar", disse Hato. Segundo ele, o número de pessoas examinadas ainda é pequeno. "Pelo menos 70% da população tem de passar pelos exames, mas não temos condições disso", disse o vereador.Apesar das ressalvas feitas pelos laboratórios, os moradores do bairro ficaram alarmados com os resultados. "Fiquei zonza com essa notícia", disse Izabel Vendrame, que mora no Condomínio Auriverde. Segundo ela, a grande preocupação é com as crianças que moram na região, e como será o tratamento. Ela afirmou que a primeira medida será reunir-se com os demais moradores para discutir a situação.O casal Ilda e Hélio Borsari, que moram no bairro há 32 anos - ambos foram examinados - também está preocupado. "O que importa agora é o tratamento", disse Hilda. Ela explicou que ainda não sabiam do resultado, mas foram informados que o caso de Hélio é um dos considerados graves. No momento, eles não pensam em se mudar de casa. "Até porque todos os imóveis da área já foram desvalorizados", salientou Hilda.O gerente de instalações da Shell Brasil, José Cardoso, afirmou que, no momento, a empresa não tem elementos para se pronunciar sobre o assunto. "Não conhecemos o resultado e a metodologia adotada nos exames", disse Cardoso. Segundo ele, a empresa está acompanhando as análises feitas por órgãos oficiais, como a Cetesb. O gerente informou ainda que os dados apresentados para a empresa são de que a comunidade da região não corre riscos de contaminação.

Agencia Estado,

12 de junho de 2002 | 18h25

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