AFP PHOTO / FONDS DE DOTATION CLINATEC - CLINATEC ENDOWMENT FUND
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Exoesqueleto experimental faz tetraplégico caminhar e mover os braços

Pesquisadores franceses conseguiram feito ao implantar eletrodos no cérebro de jovem de 28 anos, mas tecnologia ainda está longe da aplicação clínica

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 21h13

SÃO PAULO - Um francês de 28 anos, tetraplégico há quatro anos, conseguiu caminhar e mexer os braços usando um exoesqueleto controlado pelo seu cérebro. Embora considerada promissora, a tecnologia ainda é experimental e precisa passar por muitos aprimoramentos para ser aplicada clinicamente, ressaltaram os cientistas franceses responsáveis pelo feito.

Foi um longo caminho até que o paciente Thibault conseguisse movimentar os membros. A tecnologia, que alia um exoesqueleto a um sistema de sensores cerebrais, começou a ser desenvolvida há 10 anos. 

Na pesquisa, dois dispositivos foram implantados na cabeça do paciente, entre o cérebro e a pele, abrangendo a região que controla a sensação e a função motora.

 

Cada dispositivo continha 64 eletrodos que coletavam sinais cerebrais e os transmitiam a um algoritmo de decodificação. O sistema traduzia os sinais do cérebro nos movimentos em que o paciente pensava e enviava seus comandos para o exoesqueleto.

Durante 24 meses, o paciente realizou, com a ajuda de um avatar virtual, várias tarefas mentais para treinar o algoritmo a entender seus pensamentos e aumentar progressivamente o número de movimentos que ele poderia fazer.

Depois dos treinamentos com o avatar virtual, o paciente começou a exercer a mesma tarefa de usar seus pensamentos para gerar movimentos, mas, desta vez, com o próprio exoesqueleto. O feito foi publicado na última quinta-feira, 3, na revista científica Lancet Neurology

De acordo com Alim-Louis Benabid, professor emérito da Universidade de Grenoble (França) e um dos autores do estudo, as tecnologias anteriores a essa usavam sensores invasivos implantados no cérebro, que podem ser mais perigosos e pararem de funcionar frequentemente. "É o premiro sistema cérebro-computador semi-invasivo e sem fio desenvolvido para ativar os quatro membros", destacou ele.

Repercussão. Os autores do estudo e outros especialistas no tema reconhecem que, apesar de inovadora, a técnica ainda está longe de ser facilmente aplicada a todos os pacientes com lesão medular cervical. 

Segundo Tom Shakespeare, professor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, o resultado da pesquisa representa "um avanço bem-vindo e animador", mas que está muito longe da "possibilidade clínica utilizável". "Mesmo que sejam viáveis, as restrições de custos significam que opções de alta tecnologia nunca estarão disponíveis para a maioria das pessoas no mundo com lesões na medula espinhal."

De acordo com o neurologista e neurofisiologista Marcel Simis, responsável pelo laboratório de neuromodulação do Instituto de Medicina Física e Reabilitação da USP, o estudo mostra um importante avanço no campo do exoesqueleto controlado pelo cérebro, mas a grande dificuldade é transformar esses sinais cerebrais em comandos que gerem movimentos complexos.

"As principais tecnologias em estudo hoje de exoesqueleto geralmente permitem comandos mais simples. Para atividades como caminhar e pegar um objeto, o movimento é mais complexo", explica.

Outra questão a ser aprimorada no modelo é a necessidade de o exoesqueleto estar suspenso no teto para que o paciente consiga suportar o peso de toda a estrutura. Os cientistas já estão debruçados sobre isso. No momento, outros três pacientes começaram a usar o novo sistema e o próximo objetivo é buscar uma solução que permita que a pessoa caminhe e mantenha o equilíbrio por conta própria, sem usar o sistema de suspensão no teto.

Copa de 2014 teve apresentação

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis também se dedica a estudar interfaces cérebro-máquina para recuperar movimentos. Com um exoesqueleto desenvolvido pelo cientista, um paciente chegou a dar um toque em uma bola na Copa do Mundo de 2014.

Nesta sexta, após a divulgação da pesquisa francesa, ele publicou no Twitter um vídeo da abertura do evento. “Cinco anos atrás, último ensaio antes de Juliano Pinto subir a rampa rumo ao campo e fazer história na abertura da Copa.”/COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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