Expedição Colibri anuncia primeiros resultados

Durante 17 dias, sete especialistas brasileiros, franceses e escoceses percorreram as matas do Espírito Santo e os variados ecossistemas da Chapada Diamantina, na Bahia, com olhos e ouvidos atentos ao mais leve bater de asas. Integrantes da Expedição Colibri, eles realizaram a primeira etapa de registros de cantos e imagens das espécies de beija-flor destas regiões, entre os dias 3 e 20 de março último. Os objetivos são atualizar os mapas de distribuição feitos pelo maior especialista brasileiro, Augusto Ruschi; avaliar o status atual dos colibris, observar seus hábitos e estado de conservação do habitat, além de, eventualmente, identificar novas espécies. A Expedição Colibri ainda terá pelo menos mais duas etapas, provavelmente em julho e dezembro deste ano, na Amazônia (Serra do Navio, Tocantins, Alto Rio Negro), no Nordeste e no Rio Grande do Sul. "Nossa expectativa é identificar as espécies mais ameaçadas de extinção, verificar quais as pressões que vem sofrendo, em seu habitat, e propor estratégias de manejo, que garantam sua sobrevivência", explica um dos coordenadores da equipe, o ecólogo André Ruschi, diretor da Estação Biologia Marinha Ruschi e Criadouro de Colibris Augusto Ruschi. Também participaram da expedição, percorrendo mais de mil quilômetros, 200 dos quais a pé: o ornitólogo da Universidade Estadual de Campinas, Jacques Vielliard, especializado em Bioacústica; a neurocientista da Universidade de São Paulo, Maria Luisa da Silva; os escoceses Lily e Henry Quinque, experts em reprodução de animais em extinção e os franceses Gregory e Ariane Guida, responsáveis pela filmagem. Raros e ameaçadosOutra das intenções dos pesquisadores, durante a viagem, era localizar o raro Colibri delphinae greenwald, registrado pela última vez em Andaraí, na Chapada Diamantina, há 25 anos atrás. Endêmico daquela região e muito especializado, ele não foi observado desta vez e pode estar extinto, embora ainda se pretenda fazer outras incursões para localizá-lo. A extinção de uma espécie é oficialmente reconhecida após 50 anos sem registros científicos.A equipe conseguiu, no entanto, registrar cenas inéditas da nidificação de outro beija-flor raro, o Phaethornis idalie, da Mata Atlântica do Espírito Santo, e fazer filmagens de diversas espécies, incluindo uma ave albina mutante e cenas do beija-flor-de-gravata (Augastes lumachellus), endêmico da Chapada Diamantina e do campeão em velocidade, o chifrinho-de-ouro (Heliactin cornuta), que habita os campos gerais da Bahia. Este chega a voar a 60km/h e precisa de uma área média de 100km2, como território de alimentação e abrigo. Como a maioria dos beija-flores, é extremamente territorialista, defendendo com violência sua área contra a invasão de outros da mesma espécie, mesmo quando se tratam de seus próprios filhotes crescidos.Ruschi propõe a criação de uma zona tampão, em volta do Parque Nacional da Chapada Diamantina, que inclua os campos gerais, de forma a melhor proteger o chifrinho-de-ouro. "É um ecossistema ao qual ninguém dá muita atenção, porque tem vegetação mais baixa do que a do cerrado, mas de grande importância para a biodiversidade", diz. Na Chapada Diamantina, a diversidade de ambientes criados pelos grotões escarpas de pedra, vales, rios, grutas e cachoeiras e pela variação da altitude - de 350 a 1.600 metros - permite aos colibris mudar de ambiente, procurando sempre as melhores condições de clima e disponibilidade de alimento. Quando está frio nas áreas mais altas, eles descem para o sopé das chapadas, quando falta alimento migram para outro ambiente e assim conseguem fazer um bom aproveitamento do habitat. "Por isso precisamos identificar bem o uso da área pelas diversas espécies, ver o que está protegido no parque, o que ficou de fora e desenhar estratégias de conservação para todos", acrescenta o ecólogo.

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