Expedição na Amazônia resulta em cooperação com índios

Uma viagem de aventura entre amigos pode resultar em um projeto de cooperação de longo prazo entre médicos paulistas e uma comunidade ianomâmi do Alto Rio Negro. A expedição, realizada durante 20 dias do mês de novembro, reuniu sete homens, entre os quais três ortopedistas, um anestesista, um fotógrafo, um economista e um professor de educação física, com idades entre 37 e 50 anos. O objetivo era alcançar o Pico da Neblina, próximo às fronteiras com Venezuela e Colômbia. Mas na bagagem, além dos apetrechos para enfrentar a mata, seguiram 250 quilos de remédios e a disposição de conhecer e colaborar, em suas especialidades, com os índios de Maturacá, a maior comunidade ianomâmi no Amazonas.Idealizador da viagem, o ortopedista Ricardo Affonso Ferreira passou sete meses organizando a empreitada, desde roteiro e infra-estrutura até as autorizações para visitar a terra indígena e a relação de medicamentos que deveria ser levada, conseguida com a organização não-governamental (ong) Urihi, responsável pela saúde dos ianomâmis no estado vizinho, em Roraima. ?Sempre quis conhecer esse pedaço quase paradisíaco da Amazônia, mas aliando a um trabalho voluntário, que me permitisse entrar em contato com esse povo?.Outro objetivo de Ferreira é realizar uma pesquisa sobre patologias referentes a luxação congênita de quadris, pé torto congênito, escoliose e encurtamento de braços e pernas. ?O estudo seria uma avaliação clínica da comunidade e, depois, a comparação dos resultados com a incidência dessas doenças na população mundial. Há um grupo de índios no extremo norte do Canadá, por exemplo, que tem uma incidência maior de luxação congênita de quadril do que o resto da população?, disse.Segundo o médico, conhecer a freqüência dessas patologias congênitas em um povo caracterizado pelo isolamento e consangüinidade, porém, é um projeto ainda em ?fase de namoro?. ?Desde os primeiros contatos com o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Sanitário (IBDS), organização social responsável pela saúde da comunidade, percebi que havia outras prioridades a serem atendidas?.Localizada em área de sobreposição ao Parque Nacional da Neblina, Maturacá fica a cerca de 350 Km da sede do município de São Gabriel da Cachoeira, distância percorrida em aproximadamente seis horas de carro e dois dias de barco. É uma das maiores concentrações de ianomâmis, que normalmente vivem em comunidades de umas cem pessoas. Até pouco tempo, a população da região, conhecida como Cauaburis, era de cerca de 500 pessoas, mas com a melhoria no atendimento médico básico, a mortalidade infantil caiu drasticamente e hoje somam 1.250 pessoas. Somente em Maturacá, são cerca de 850 índios.Ferreira explica que esses cuidados, principalmente com a malária e a tuberculose, não são suficientes para melhorar a qualidade de vida dos índios. ?Com o aumento da população, vem também o aumento da pobreza e das demandas. Apesar de formarem uma nação fortíssima, há problemas que precisam ser resolvidos para que a população não empobreça e perca sua identidade?. Entre os problemas detectados pelos médicos da expedição, estão a falta de higiene e a desnutrição. ?Há poucas hortas e chegamos a encontrar crianças com os cabelos claros, que no caso de uma população indígena isolada é um sinal de problemas nutricionais. Essa característica vai desaparecendo conforme a criança cresce.?Programando cirurgiasJorge Abud/DivulgaçãoEquipe da expedição no Pico da NeblinaApesar de terem conseguido todas as autorizações e contarem com o apoio do titular da missão católica em São Gabriel da Cachoeira, os primos Ricardo, Martin e Henrique Affonso Ferreira, mais os amigos Patrick de Nadau, Eurico Campos, Jorge Abud, todos de Campinas, e o neozelandês Gordon Hawie -, foram recebidos com alguma resistência e levaram tempo para ganhar a confiança dos índios e dos responsáveis do IBDS. ?Essa desconfiança e superproteção é razoável, levando em consideração experiências vividas pelos ianomâmis, mas conseguimos vencer as barreiras e passar dois dias, na volta do Pico da Neblina, examinando os problemas ortopédicos da localidade?. Foram diagnosticados casos de cirurgia e de fisioterapia, como um menino com a mão bem fechada, que precisava apenas de exercícios e estímulo para resolver o problema. ?Conversamos com a mãe, para que ele brinque com a mão?.Entre os casos mais graves, estavam uma seqüela de fratura exposta de tornozelo, em um rapaz que caiu de uma árvore, e uma bioartrite de quadril, em uma moça de 16 anos, com dificuldade de locomoção. ?Selecionei quatro casos para operar em São Gabriel da Cachoeira. Visitamos o hospital de lá, que é muito bem equipado e cuidado pelo Exército. Pretendo levar daqui as placas, parafusos, tudo o que for preciso, e uma equipe, com anestesista e instrumentadora, para me acompanhar?. Para viabilizar esse projeto, o médico está conversando com possíveis parceiros, como a Unimed de Campinas e o laboratório de genéricos Medley, que doou os medicamentos levados na excursão. A intenção é conseguir recursos para bancar duas viagens por ano de médicos para realizar cirurgias, inclusive de outras especialidades, e também colaborar com outras necessidades, como equipar o posto médico com microscópios e computadores, manter o estoque de remédios e promover cursos para os cerca de 15 agentes de saúde da comunidade.?Maturacá conta com um médico e uma enfermeira, mas sua área de atuação é grande e eles circulam bastante. Para ir a uma aldeia chamada Umaiá, por exemplo, precisam andar dois dias de barco e um a pé para chegar?. Essa deficiência foi sentida pelos médicos da expedição, que tiveram que atender um rapaz, com cortes profundos causados por uma briga.Outra preocupação do médico é ajudar a equipar a escola, mantida por padres salesianos, e conseguir alternativas de sobrevivência aos índios, como abrir canais para a comercialização de artesanato. Segundo Ferreira, existem soluções simples, que poderiam melhorar em muito a qualidade de vida da comunidade, que não estão sendo exploradas.Caçadores-agricultoresA população total dos ianomâmis, situados em ambos os lados da fronteira Brasil-Venezuela, é estimada em 26 mil pessoas. No lado brasileiro, são aproximadamente 12.800 índios, vivendo em 228 comunidades nos estados do Amazonas e Roraima. A Terra Indígena Ianomâmi, reconhecida em 1992, cobre 96 mil Km2 de floresta tropical e tem alta relevância para proteção da biodiversidade amazônica.Formada por uma sociedade de caçadores-agricultores, cujo contato com a sociedade nacional é relativamente recente, os ianomâmis têm na expansão garimpeira sua maior ameaça. Segundo a ong Urihi, os cerca de 400 a 800 garimpeiros presentes nas terras ianomâmis estão tendo relações sexuais, distribuindo munição e estimulando conflitos entre as aldeias. Além disso, quase 60% de seu território está coberto por requerimentos e títulos minerários registrados no Departamento Nacional de Produção Mineral.

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