Exploração ameaça castanha-do-pará, adverte estudo

A tradicional atividade de coleta de castanha-do-pará na Amazônia ? vista como uma das melhores opções econômicas para preservação da floresta ? não é tão sustentável quanto parece. A superexploração do recurso em várias regiões está dificultando a reprodução das castanheiras, segundo estudo publicado nesta sexta-feira na revista Science. A coleta dos frutos é tão intensa que, em alguns casos, não sobram sementes suficientes para germinar e dar origem a novas árvores.?Nessas áreas superexploradas há um número decrescente de árvores cada vez mais velhas e que não estão sendo repostas por jovens, o que pode levar a um colapso demográfico dessas populações?, explica o ecólogo paraense Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha, que coordenou o estudo. ?Isso não quer dizer que a castanha-do-pará vá desaparecer da Amazônia amanhã, mas que é preciso repensar a maneira como ela está sendo explorada, de forma a garantir sua sustentabilidade.?Pesquisa levou dez anos para ser concluídaConstruída em dez anos de trabalho de campo, a pesquisa analisou 23 das principais áreas de atividade castanheira no Brasil, Peru e Bolívia. Participaram do trabalho pesquisadores da Universidade de São Paulo, Embrapa, Museu Paraense Emílio Goeldi e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, além de cientistas da Holanda, EUA e Peru.Parte dos dados remete ao início do século passado. Quanto mais intensa e mais antiga a exploração, menor o número de árvores jovens. ?A mensagem clara é que as práticas atuais de coleta de castanha-do-pará em muitos pontos da floresta amazônica não são sustentáveis a longo prazo?, escrevem os pesquisadores. Eles ressaltam, entretanto, que a atividade é benéfica e deve ser incentivada ? apenas com algumas adaptações ? em lugar de práticas muito mais destrutivas.Coleta da castanha movimenta US$ 33 milhõesA castanha-do-pará é a única semente no mercado internacional extraída exclusivamente de florestas naturais. A atividade movimenta cerca de US$ 33 milhões e depende totalmente da coleta dos frutos ? conhecidos como ouriços ? que caem das árvores, realizada por comunidades tradicionais. Segundo Peres, várias tentativas de estabelecer plantações já foram feitas, sem sucesso.As castanheiras podem superar os 50 metros de altura e possuem o caule mais grosso da Amazônia, podendo ultrapassar 5 metros de diâmetro na base. A dispersão das sementes é responsabilidade das cotias, único animal capaz de quebrar a dura casca dos ouriços. Na competição com os coletores humanos, entretanto, nem mesmo esses pequenos roedores estão dando conta do recado. Em alguns casos, a coleta chega a mais de 90% dos frutos.A melhor solução, segundo Peres ? cuja família foi pioneira na atividade ?, seria estabelecer um regime de rotação e deixar de coletar nas áreas mais críticas por dois ou três anos, de modo que a floresta possa se regenerar naturalmente. ?A má notícia é que o problema existe. A boa é que podemos resolvê-lo rapidamente.?

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