WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Exposição revela mundo perdido sob o gelo da Antártida

Fósseis de plantas e animais comprovam que continente já abrigou flora e fauna exuberantes; material do Museu Nacional é resultado de pesquisa brasileira no projeto Paleoantar

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2019 | 16h43

RIO - A espessa camada de gelo que recobre toda a Antártida esconde um passado muito diferente do atual mundo branco, gelado e praticamente estéril, isolado no extremo sul do planeta. Escavações paleontológicas comprovam que o continente já abrigou uma frondosa floresta tropical e as mais diferentes espécies de animais, inclusive dinossauros e répteis gigantes.

Boa parte dessa pesquisa está sendo feita por cientistas brasileiros e, agora, poderá ser vista pelo público. O diretor do Museu Nacional, o paleontólogo Alexander Kellner, e a também paleontóloga Juliana Sayão apresentaram nesta quarta-feira, 16, as novas descobertas do Projeto Paleoantar, vinculado ao Programa Antártico Brasileiro. O material novo e também o mais antigo está todo reunido pela primeira vez na exposição Quando Nem Tudo Era Gelo – Novas Descobertas no Continente Antártico, no Centro Cultural Museu Casa da Moeda.

“Essa exposição, aberta pouco mais de quatro meses depois da tragédia que se abateu sobre a nossa instituição, tem inúmeros significados: é a primeira realizada desde o incêndio, acontece no prédio que foi a primeira sede do Museu Nacional e será uma oportunidade incomparável para o público conhecer uma Antártica apresentada de forma única e surpreendente”, resumiu Alex Kellner. Na ocasião, temia-se que o incêndio poderia ter colocado um fim às pesquisas. 

A exposição estava prevista para outubro do ano passado e seria realizada no próprio Museu Nacional. O incêndio, em setembro, que destruiu boa parte do prédio e do acervo da instituição, forçou uma mudança nos planos. A primeira parte da mostra reconstrói um acampamento de pesquisadores na Antártida, com direito a uma réplica do navio da marinha que dá apoio logístico aos pesquisadores.

Na segunda parte da exposição, o público poderá ter uma ideia do mundo perdido soterrado pela neve. Fósseis e reproduções de plantas e animais que viveram há 90 milhões de anos estão em destaque.

“Estamos apresentando as mais recentes descobertas das expedições realizadas entre 2015 e 2018”, explicou a paleontóloga Juliana Sayão, curadora da exposição. “Nesse período, nossos pesquisadores trabalharam mais ao sul da Antártida na prospecção e coleta de fósseis para fins de reconstrução paleoclimática, paleoambiental e paleobiogeográfica da fauna e da flora do Cretáceo no continente.”

Atualmente, a temperatura média no verão da Antártida é de 35°C negativos no interior do continente e de zero grau na península. A temperatura mais baixa já registrada na Terra (89°C negativos) ocorreu nas proximidades do Polo Sul. E é por conta desse ambiente tão inóspito que o continente nunca foi permanentemente habitado pelo homem – diferentemente do Ártico, onde há populações autóctones.

Clima ameno

Mas nem sempre foi tão frio assim. Durante a maior parte do Cretáceo (144 milhões a 65 milhões de anos atrás), um clima bem ameno prevaleceu na Antártida, favorecendo o crescimento de plantas e, consequentemente, o surgimento de animais. Fósseis desenterrados com cada vez mais frequência, revelam uma flora e uma fauna das mais exuberantes.

Árvores com mais de quatro metros de altura e diferentes espécies de samambaias compunham essa floresta tropical.

No mar, que tinha temperaturas mornas como a da costa do nordeste brasileiro, viviam verdadeiros monstros marinhos, como o plesiossauro. Os répteis gigantes e carnívoros chegavam a ter, em média, cinco metros de comprimento. O mais antigo fóssil de plesiossauro já achado na Antártida tem aproximadamente 80 milhões de anos e foi descoberto pelo grupo de Kellner. Uma réplica está em exposição.

O grupo também desenterrou um fóssil de mosassauro – um lagarto marinho que podia chegar a medir 17 metros e pesar seis toneladas. Uma réplica de cinco metros de um mosassauro, semelhante ao que aparece no filme Jurassic World (2015) e também em Aquaman (2018), é um dos grandes destaques da mostra.

Os especialistas brasileiros descobriram recentemente um fóssil de pterossauro – o primeiro já encontrado na península antártica – confirmando a hipótese de que os répteis voadores também povoaram os céus da Antártida.

No passado, a Antártida era ligada a outros continentes, na chamada Gondwana, e, por isso, seu clima era temperado. A separação só se configurou há 32 milhões de anos, quando a corrente fria que se dispersava pelo Oceano Pacífico passou a circundar a Antártida, isolando-a.

Para os pesquisadores, a compreensão da pré-história da Antártida é fundamental para diferentes áreas de conhecimento. “A exposição é uma forma de facilitar o entendimento das pessoas sobre questões que afetam as vidas de todos nós, como o calor excessivo no Rio de Janeiro, por exemplo”, afirmou Juliana Sayão. “Todas as massas de ar frio, as correntes marítimas que chegam até nós vêm da Antártica. Os estudos nos ajudam a contemplar o futuro das mudanças climáticas. Também conseguimos entender a origem de alguns grupos e a evolução das espécies.”

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