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Exterminadores do futuro

Durante as últimas décadas, temos nos dedicado a exterminar milhares de espécies de seres vivos. Esse fenômeno, amplamente comprovado, recebeu o nome de “a quarta extinção em massa”. A terceira acabou com os dinossauros. Como ficará o planeta no fim desse processo? Parte da resposta pode estar nos fósseis acumulados durante as outras grandes extinções. 

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2015 | 03h00

Todo ser vivo interage com outros seres vivos. Por esse motivo, seu desaparecimento afeta a rede de relações que existe entre os seres vivos. Esse efeito pode ser mínimo ou catastrófico, dependendo de como essa rede está organizada.

Certos animais, como os ursos panda, se alimentam de poucas espécies de vegetais. Se uma dessas espécies desaparece, provavelmente o urso panda vai junto para o mundo dos extintos. Já outras espécies, que se alimentam de diversos vegetais, talvez nem sequer sejam afetadas pelo desaparecimento do alimento preferido dos pandas.

Esse sistema complexo de relações pode ser frágil ou robusto. Ele é frágil se a extinção de algumas poucas espécies causa uma grande desorganização, levando rapidamente à extinção de outras espécies e ao colapso de todo o sistema. Se for robusto, é capaz de absorver o desaparecimento de muitas espécies e ainda se manter funcional. É claro que o desaparecimento de uma ou duas espécies não causa o colapso de um bioma como a Amazônia, mas o que acontecerá se 30% das espécies desaparecerem? Ela resiste ou colapsa? É essa a questão que os cientistas procuraram responder.

A maioria dessas extinções aconteceu ao longo de 60 mil anos, quase exatamente 252 milhões de anos atrás. A temperatura do planeta subiu 8°C e a quantidade de gás carbônico na atmosfera chegou a 2 mil partes por milhão (hoje temos 400 ppm e esse valor sobe 2 ppm por ano) após ter subido rapidamente. As causas que levaram a essas mudanças climáticas no passado são motivo de polêmica, mas é certo que parte das mudanças que aconteceram naquela época é semelhante às que estamos vivendo hoje. Durante esse período desapareceram 60% das espécies de bivalvos (mariscos), 98% dos caramujos, todos os trilobitas, 66% dos anfíbios. Em algumas regiões do planeta, praticamente todos os animais com quatro patas sumiram.

A extinção aconteceu em duas etapas e não se sabe com certeza se a primeira foi a causa da segunda. O fato é que demorou mais de 30 milhões de anos para a biodiversidade do planeta se recuperar desses 60 mil anos fatídicos.

Um grupo de cientistas reconstituiu as relações entre espécies que existiam durante esse período analisando os fósseis acumulados em uma região da África do Sul chamada de Bacia de Karoo. Nesse local é possível coletar fósseis das comunidades que viviam no fim do Permiano (comunidade original), os fósseis que se acumularam durante a primeira e a segunda fase da extinção, das comunidades que existiam um milhão de anos após a extinção em massa (época Lyst), e os fósseis das comunidades que se formaram nos milhões de anos seguintes.

Com a lista de toda a biodiversidade existente em cada uma dessas épocas, da frequência de cada espécie e das relações entre elas, os cientistas construíram modelos complexos que descrevem as relações existentes entre as diversas espécies nesses ecossistemas. Feitos os modelos, eles foram analisados para verificar se a estrutura dessas comunidades era robusta ou frágil.

A conclusão é que a comunidade que existia antes do início da extinção em massa era muito robusta, pouco suscetível a ser desequilibrada pela perda de algumas espécies. Ao longo dos dois períodos de extinção, as comunidades perderam a resiliência, se tornando frágeis. Talvez isso explique por que o período de perda de espécies durou quase 60 mil anos. Esse período de instabilidade durou ainda 3 ou 4 milhões de anos após a grande extinção. Foi somente 30 milhões de anos depois do fim da extinção que os ecossistemas recuperaram sua biodiversidade e um alto grau de resiliência.

Esses resultados sugerem que uma extinção rápida de espécies, semelhante à que estamos provocando nos últimos 100 anos, pode disparar uma sequência de desequilíbrios, provocando mais extinções. Além disso, esse estudo demonstra que a recuperação pode levar milhões de anos.

Os biólogos já suspeitavam que uma extinção como a que estamos provocando no planeta pode acarretar um desequilíbrio global de longa duração e de recuperação ainda mais longa. A comprovação que isso já aconteceu no passado confirma essa suspeita. A diferença entre o que aconteceu 252 milhões de anos atrás e o que acontece agora é que agora a extinção está sendo provocada por uma espécie que sabe que seu comportamento é a causa do desastre. Mas essa espécie, chamada Homo sapiens, até agora foi incapaz de modificar seu comportamento. Somos os exterminadores de nosso futuro.

MAIS INFORMAÇÕES: COMMUNITY STABILITY AND SELECTIVE EXTINCTION DURING THE PERMIAN-TRIASSIC MASS EXTINCTION. SCIENCE, VOL. 350, PÁG. 90 (2015)

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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