Falta de madeira prejudica comunidades ribeirinhas

A atuação dos madeireiros na Amazônia atingiu a fabricação de canoas nas tradicionais comunidades ribeirinhas, no extremo oeste do Amazonas. Árvores usadas nos estaleiros familiares, como guariúba, jacareúba, angelim e itaúba só estão sendo encontradas em lugares cada vez mais distantes dos povoados. A atividade garante a renda de boa parte das famílias, que também atuam na pesca e no plantio de mandioca, feijão e banana.Estimativas oficiais revelam que 18 mil hectares de floresta desaparecem a cada ano na região. Em São Rafael, comunidade às margens do Rio Itaquaí, não há mais um pé de árvore que posssa virar canoa. O mateiro Valdeci de Souza Rios, 43 anos, lembra a época em que as madeiras usadas nos estaleiros eram facilmente encontradas por de trás das embaúbas, árvores de madeira mole que encobrem as margens dos rios e igarapés. "Os madeireiros chegaram na comunidade e foram cortando as madeiras", afirma.Valdeci e os parentes foram recrutados pelas madeireiras no corte das árvores. Nas contas do fabricante de canoas, saíram em média da comunidade 1.600 toras a cada inverno, período que chamam na região a época de cheia dos rios, que vai de dezembro a junho. A partir dos anos 90, ele passou a ter dificuldades em fazer canoas. Para conseguir as madeiras, agora é obrigado a percorrer grandes trechos na mata.Não foi apenas a floresta que sofreu com o corte indiscriminado de árvores. Colegas de Valdeci, como Raimundo Costa, Arlindo dos Santos e um outro conhecido por Neca, acabaram morrendo em acidentes no corte e no tombamento de árvores em São Rafael. "Progresso é isso mesmo", resigna-se o mateiro. Ele foi contratado pelo governo para acompanhar a expedição indigenista que busca vestígios de índios isolados no Vale do Javari. Como será impossível transportar embarcações nos trechos de mata percorridos a pé, Valdeci ficará responsável em fabricar canoas para travessias de igarapés.A madeira utilizada para fazer os remos das canoas também está se tornando rara nas florestas em volta das comunidades de ribeirinhos. Na cor branca ou amarela, a carapanaúba é uma madeira pesada que facilita na elaboração da forma dos remos. A fabricação de canoas e remos exige paciência no corte e no aplainamento da madeira. O pau ainda é queimado para amolecer e se "abrir".Índios ? Mais sorte tiveram os índios que vivem dentro da Terra Indígena do Vale do Javari. Com a proibição da entrada de madeireiros na área, ainda é fácil encontrar madeiras utilizadas na fabricação de canoas. O índio Ivã Arapá, da aldeia Matis, afirma que só no mês passado a comunidade construiu quatro novas canoas.A guariúba e a jacareúba são as madeiras preferidas pelos índios na produção de "nunté", como pronunciam a palavra canoa. Na aldeia, uma embarcação para três pessoas leva até um mês para ser feita por um homem. Mas se o trabalho for conjunto, envolvendo três a quatro índios, esse prazo pode ser reduzido para dez dias.A canoa de paxiúba, palmeira também chamada de barriguda pela saliência no tronco, é a mais tradicional embarcação de Matis e Korubos do Vale do Javari. Para fazer o que chamam também de "cocho", os índios cortam a "barriga" da árvore e retiram o "miolo". Na pesca, eles costumam utilizar cipó com veneno que são mergulhados no rio. Nada de jogar gasolina nas margens para desviar os cardumes que caíam nas grandes redes, como faziam pescadores profissionais que entravam na área.O repórter Leonencio Nossa, da Agência Estado, está acompanhando uma expedição de 105 dias da Funai, ao Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, em busca de índios isolados. Veja o especial Em Busca de Povos Desconhecidos

Agencia Estado,

28 de junho de 2002 | 13h30

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