Fazenda em Campinas tem arboreto de 60 anos

Luiz Prado/AE Schmidt no viveiro de mudas e o seu arboreto: trabalho de 61 anos que hoje beneficia pesquisas científicas Em frente à sede da Fazenda Santa Mônica, no Distrito de Joaquim Egídio, em Campinas (SP), enormes paus-ferros e palmeiras-imperiais de no mínimo 30 metros de altura, entre outras espécies, recepcionam os visitantes. São árvores antigas, com um diferencial: quem as plantou ainda as vê crescer, renovar as folhas, florescer e frutificar. É o alemão Wolfgang Schmidt, de 98 anos, que há cerca de 60 anos plantou as mudas e até hoje desfruta do privilégio de apreciar a bela vista que essas árvores propiciam, da varanda da casa. Boa parte da Santa Mônica foi reflorestada pelo próprio Schmidt, que de exportador de madeira - "Cheguei a embarcar vários navios de araucária para a Europa", conta -, até o início da 2.ª Guerra Mundial, tornou-se um ambientalista, reflorestador e estudioso de árvores, suas espécies e melhores adaptações. Prêmio - Seu empenho valeu, durante a ECO 92, a ele e à sua esposa, Anésia do Amaral Schmidt - falecida no início do ano, após 70 anos de casamento -, o prêmio Global 500, o mais importante prêmio da ONU conferido a ambientalistas. O grande destaque do trabalho desenvolvido por Schmidt foi a formação de um arboreto, iniciado em 1942, e que hoje conta com cerca de 250 espécies de árvores, tanto exóticas quanto nativas, para estudos e produção de sementes. "Quando alguém vai reflorestar é importantíssimo saber a procedência das sementes, e isso nós temos aqui", orgulha-se Schmidt. Por causa do arboreto, a Santa Mônica virou local de pesquisa para profissionais ligados às ciências florestais e estudantes, que ali identificam corretamente as espécies, analisam seus lenhos, suas sementes, germinação, e estudam seus melhores usos. Isso com a preciosa ajuda de Schmidt, que ao longo de 61 anos acompanhou o crescimento das árvores, fez medições e outras observações a respeito de seu desenvolvimento e pode passar as informações aos interessados. A Embrapa Monitoramento por Satélite, em Campinas, até publicou um site (www.arboretos.cnpm.embrapa.br) sobre o arboreto da Santa Mônica, um dos poucos existentes no País. No site da Embrapa, constam apenas mais 11 trabalhos do gênero. Um dos resultados práticos do trabalho foi que, conforme a Embrapa, Schmidt conseguiu resolver problemas relacionados principalmente ao total desconhecimento dos nomes científicos das plantas, o que originava certas dúvidas e inconveniências, tanto no mercado de madeira local quanto internacional. As árvores plantadas nos 14 talhões que compõem o arboreto estão perfeitamente identificadas, com nome científico e popular. "Experimentação de cultivo de plantas madeireiras, que vão além das tradicionais pinus e eucaliptos, justificam-se à medida que aumentam as alternativas de exploração comercial de outras espécies", consta no site da Embrapa sobre o arboreto da Santa Mônica. Além do arboreto, outra iniciativa foi montar uma xiloteca, atualmente com 220 lenhos, para auxiliar na identificação de madeiras, e também uma biblioteca especializada em botânica, silvicultura e área ambiental. Trabalhos como o de Schmidt, segundo a Embrapa, apesar de não ser o único, "precisam ser estimulados e apoiados, pois é necessário um alto investimento e os resultados, apesar de muito necessários, são extremamente demorados". Como alguém que cultivou um bonsai - técnica japonesa de cultivo de mini-árvores que levam décadas para tomar forma -, Schmidt tem o privilégio de, com quase um século de vida, apreciar os resultados de seu arboreto. Um viveiro com mudas de 170 espécies Antes de ser parcialmente reflorestada, a Santa Mônica abrigou plantações de café, algodão e cereais e, durante 26 anos, produziu leite tipo B, já nas mãos do casal Anésia e Schmidt. Há oito anos, porém, como conseqüência do trabalho desenvolvido no arboreto, Schmidt decidiu formar um viveiro para comercializar mudas, tanto de árvores frutíferas quanto ornamentais e outras plantas. Arvores também - São, ao todo, 33 mil mudas de mais de 170 espécies. Além das mudas, a Santa Mônica também fornece árvores adultas, para transplante na formação de parques e jardins. Mudas de abacaxi, cajá-manga, chorão, cumaru, guaraná, café, grevíleas, imbuias, pau-santo de Mato Grosso e jabuticabas de várias qualidades são comercializadas na Santa Mônica, entre outras espécies. Há, até, mudas de plantas medicinais e bastante procuradas atualmente, como a planta oriental gingko biloba. Segundo o responsável pelo viveiro, Raimundo Santana de Almeida, no ano passado a fazenda vendeu cerca de 30 mil mudas para várias finalidades. "Geralmente vendemos por lotes de 100 mudas, que custam R$ 500,00", explica Raimundo. "É só vir aqui e escolher as mudas e as espécies." Schmidt destaca que as mudas formadas na Santa Mônica provêm de sementes com procedência. "São sementes coletadas no próprio arboreto e de algumas instituições, como a Embrapa e a Cesp", diz ele, o que garante a qualidade das mudas e a certeza de que se trata da espécie realmente procurada.

Agencia Estado,

09 de julho de 2003 | 09h39

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