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Fé e ciência 'disputam' vulcão no Havaí

Construção de telescópio gigante em Mauna Kea, onde já há 13, causa protestos de nativos que consideram monte um local sagrado

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2015 | 16h29

Do pico do monte Mauna Kea, o mais alto do Pacífico, a vista que se tem do céu é de tirar o fôlego. Acima das nuvens, no meio do oceano, bem longe de qualquer interferência de luz ou poluição, o céu é limpo em 325 noites por ano. Sem nuvens, dali é possível observar o Universo como praticamente de nenhum outro ponto da Terra.

Foi talvez o que tenha atraído os primeiros habitantes do Havaí a frequentar o local e dali tirar a explicação para suas próprias origens. Foi certamente o que levou também pesquisadores – na tentativa de entender as origens do Universo – a ocupar uma parte do monte com poderosos telescópios.

Hoje as duas culturas estão em conflito pelo uso do Mauna Kea.O vulcão inativo localizado na Ilha Grande, do Havaí, hospeda telescópios desde 1968. Hoje são 13, comandados por 11 países (Brasil incluído), que vasculham o espaço atrás, por exemplo, de novos planetas, galáxias e buracos negros, a até tentar compreender grandes dilemas da ciência, como a expansão do Universo.

Mas desde que foi anunciada a construção de um novo – e gigantesco – telescópio, de 18 andares de altura, o TMT (Telescópio de Trinta Metros, na sigla em inglês, em referência ao diâmetro do seu espelho), a situação com os nativos, que nem sempre foi a mais harmoniosa, azedou de vez.

Havaianos que praticam a religião ancestral e consideram Mauna Kea um local sagrado entraram com petição na Justiça pedindo a proibição da obra e têm feito protestos no centro de visitantes do observatório e na capital do Havaí, Honolulu (que fica na ilha de Oahu) para impedir a construção.

Num dos mais recentes eventos, em 24 de junho, eles bloquearam a estrada que leva ao pico colocando vários pedaços de rocha e altares de pedra no meio do caminho. Desde abril, mais de 30 pessoas foram detidas. Um grupo está acampado ao lado do centro de visitantes há cerca de quatro meses, o que motivou o governo a baixar uma regra proibindo passar a noite em acampamentos em toda a montanha. Eles podem ser retirados a qualquer momento. As obras foram suspensas e ainda não retornaram.

Mais longe. O TMT se encaixa em uma nova linha de telescópios que está sendo planejada para observar o Universo muito mais longe e com mais precisão do que foi possível até hoje.

Orçado em US$ 1,4 bilhão, a iniciativa de grupos de pesquisa da Califórnia (EUA), Canadá, China, Índia e Japão compete com outros dois telescópios gigantes a serem construídos no Deserto de Atacama, no Chile. As duas regiões possuem características semelhantes de visibilidade – ambas com céu muito limpo e seco, mas cada uma está em um hemisfério, o que torna diferente a perspectiva do espaço.

Para os nativos havaianos, Mauna Kea (ou Mauna O Wakea) representa o deus Wakea (ou pai-céu), “de quem todas as coisas no Havaí descendem”. No local também é feita a adoração à Poli’ahu, deusa da neve e filha de Wake. O pico do monte é considerado reino dos deuses e no passado era visitado somente pelos mais altos líderes das tribos. O local abriga santuários e sepulturas dos ancestrais e é local de contemplação.

Os manifestantes dizem não ser contra a ciência, mas dizem que a ocupação do monte chegou a um limite que prejudica não só as práticas tradicionais como o sensível ambiente, que tem espécies únicas. “Astronomia é uma ciência nobre, mas vamos admitir que não vai mudar o mundo amanhã. É preciso colocar isso em perspectiva”, disse Kealoha Pisciotta, uma das litigantes do processo. O pedido será avaliado pela Suprema Corte do Havaí em agosto.

“O ponto todo em torno do TMT é que ele vai ser um telescópio enorme e que só com esse tamanho será possível ver algumas coisas. Mas os europeus estão construindo o Extremely Large Telescope, no Chile, que vai ser ainda maior (o espelho será de 39 m). Eles podem testar a ciência sem precisar construir o TMT em Mauna Kea porque já haverá um outro telescópio testando isso em outro lugar. Eles só precisam trabalhar juntos. Mas existe somente um lugar para fazermos nossas práticas culturais e tradicionais, e é no Mauna Kea”, afirma.

Para a equipe do TMT, porém, é justamente a posição no Hemisfério Norte que tornou o Mauna Kea único para alguns de seus estudos, como tentar desvendar como a energia e a matéria escura governam a evolução do Universo. Michael Bolte, do conselho de diretores, disse ao Estado que o projeto foi feito de modo a “respeitar a montanha”. 

“Nós entendemos muitas das preocupações que os manifestantes expressaram sobre o desenvolvimento histórico do Mauna Kea. O TMT está trabalhando para ser um agente positivo de mudanças e vamos seguir um plano para proteger e conservar os recursos culturais e naturais de Mauna Kea, nos tornando um modelo de astronomia sustentável.”

O conflito tem preocupado a União Astronômica Internacional (UAI), que faz sua assembleia geral trienal em agosto justamente em Honolulu. “O TMT será o maior observatório óptico/infravermelho do Hemisfério Norte por um fator de 10 em termos de poder de captação de luz. As implicações da sua pesquisa são cruciais”, diz Piero Benvenuti, da UAI.

“Se o TMT e outros telescópios no Mauna Kea forem fechados, isso absolutamente vai resultar em uma perda significativa para a comunidade científica e astronômica”, complementa o pesquisador.

No final de maio, o governador do Havaí, David Ige, pediu à Universidade do Havaí, que detém a zeladoria do Mauna Kea, a tomada de dez ações para melhorar a gestão do local. “De várias maneiras, nós falhamos com a montanha”, disse na ocasião. Sem falar diretamente em uma concessão aos manifestantes, ele propôs que começassem a ser desativados quantos telescópios fossem possíveis, chegando a 25% do que existe até que o TMT esteja pronto para operar. A previsão é 2022.

Na opinião dos manifestantes, isso não ajuda. “Tirar telescópios que ainda estão fazendo ciência é ridículo. Eles até têm de ser retirados eventualmente, mas derrubá-los pode ser tão destrutivo quanto construí-los. O que não queremos é um monte de construções lá. Não queremos o TMT”, diz Kealoha.

SAIBA MAIS SOBRE O MAUNA KEA

Um lugar único no Oceano Pacífico

Por conta de sua geografia e localização, o monte Mauna Kea é considerado único no hemisfério Norte para a observação astronômica (só o Deserto do Atacama, no Chile, se equipara ao Mauna Kea, mas no hemisfério Sul). O pico fica quase sempre acima de uma camada grossa de nuvens, que serve como um bloqueio para a umidade marinha e poluentes atmosféricos. Assim a atmosfera acima da montanha é extremamente limpa e seca – o que é propício para medir a radiação infravermelha e submilimétrica dos corpos celestes. E sem nuvens, o que permite que a proporção de noites claras esteja entre as mais altas do planeta. Em média, o céu é limpo em 325 noites por ano, e extremamente escuro, porque o monte está longe das luzes das cidades. Assim os telescópios enxergam galáxias menos luminosas que se encontram no limite do Universo observável.

Sagrado

Para os nativos, foi em Mauna Kea (Montanha Branca) onde começou a criação do Havaí. O pico é considerado o ponto de encontro entre céu e terra pois teria sido lá onde o deus Wakea (pai-céu) e Papa (mãe-Terra) deram origem a todo o povo havaiano. Segundo a tradição é deles que descendem o arquipélago e todas as outras coisas no Havaí. No local também é feita a adoração à Poli’ahu, deusa da neve e filha de Wake, e à várias outras divindades do panteão havaiano. Ali estão santuários e sepulturas dos mais bem-nascidos e dos ancestrais sagrados.

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