Feijão transgênico deve ter plantio-teste por 3 anos

Será necessário um período de três anos para comprovar a segurança ambiental da variedade de feijão transgênico que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está desenvolvendo. A avaliação é do pesquisador Josias Faria, da Embrapa Arroz e Feijão, que alertou para a necessidade de testes em vários pontos do Brasil, em diferentes tipos de ecossistema.O plantio experimental do feijão transgênico, resistente ao vírus do mosaico dourado, foi permitido pelo Ibama, que deve emitir autorização formal nesta sexta-feira. Inicialmente, a pesquisa de campo será feita em Santo Antônio de Goiás, a 12 km de Goiânia, no campo experimental da Embrapa. "Só depois desses primeiros testes, se eles forem positivos, é que poderemos pensar em cultivar o feijão transgênico em outros Estados", disse o pesquisador.Na Estação Experimental de Goiás, uma área de 2.500 metros quadrados será destinada ao experimento. Mas apenas 45 metros quadrados serão destinados ao cultivo da semente geneticamente modificada. Isso porque, explicou o pesquisador, é necessária uma borda de segurança que cerque a área do experimento para evitar o escape de material. Na prática, a área de 45 metros quadrados será rodeada por outras duas lavouras, uma de feijão convencional e uma terceira de milho.Segurança alimentarSe o plantio não for feito até segunda-feira, os pesquisadores podem perder a chance de fazer sua pesquisa neste ano, por causa das condições climáticas ao longo das estações. Nos testes de campo, eles vão verificar se o feijão transgênico se adapta a condições normais de temperatura, variação de umidade e luminosidade. "Produziremos o bastante para fazer testes de segurança alimentar", diz o agrônomo Francisco Aragão, responsável pelo projeto.A Embrapa desenvolveu esta variedade em laboratório para tenter evitar grandes perdas na lavoura de feijão. O vírus do mosaico dourado é transmitido pela mosca branca, que se alastrou por todo o País. A planta infectada encarquilha, suas folhas enrugam e ficam amareladas e a vagem, retorcida.O produtor perde a safra ou tem colheita reduzida. "Em muitas regiões, os produtores estão deixando o feijão de lado para plantar soja, milho e outras culturas por causa da praga", diz Aragão. A praga hoje só pode ser controlada com aplicação preventiva de inseticida, tóxico e caro.Gene mutadoO vírus do mosaico dourado insere seu DNA na planta e passa a produzir uma enzima chamada replicase, fundamental para sua replicação. Quando atinge determinado nível de replicase, o vírus passa a se reproduzir, causando a deterioração da planta. A estratégia adotada pelos cientistas foi introduzir na planta um gene mutado de replicase."Quando o vírus entra na planta, não produz a sua replicase porque o nível na planta já é o ideal. Mas a réplica da planta não permite que ele se reproduza", explica. Sem poder se reproduzir, o vírus não afeta a planta. Agora falta saber como esta planta se comporta no campo.A Embrapa vem tentando fazer o plantio experimental desde 2001. "Começamos a trabalhar com o feijão e o vírus do mosaico dourado em 1991, quando não sabíamos nada a respeito do vírus", conta o agrônomo. Em 99, a equipe produziu uma planta promissora, cultivada em estufa e recebeu da CTNBio autorização para o teste. "Aí um juiz de Brasília incluiu nosso feijão na lei que trata de agrotóxicos e afins e exigiu registro especial temporário (RET), que é concedido pelo Ministério da Agricultura, após pareceres da Anvisa e do Ibama."Nem o ministério sabia como conceder RET para transgênicos, mas em outubro do mesmo ano a Embrapa entrou com a papelada. As normas só saíram em 2002, com modificações. No final, foram necessárias sete autorizações.

Agencia Estado,

12 de março de 2004 | 12h38

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