Feitiço celular

Imagine só: você pega um pedaço de plástico, aperta alguns botões, fala por um furinho que mal dá para enxergar na base do aparelho e sua voz é transportada automaticamente para um outro lugar qualquer do mundo.   Mágica? Ficção científica? Loucura? Nada disso, é apenas o nosso bom e velho (na verdade, não tão velho assim) telefone celular - mais uma das supermaravilhas tecnológicas do mundo moderno que se integrou de forma irreversível ao nosso dia a dia.   Pense bem: o telefone é uma coisa fantástica! O telefone celular, então, é inacreditável! Você fala por um furinho aqui em São Paulo, na Avenida Paulista, e o seu amigo te escuta perfeitamente no Tibet, no alto do Monte Everest, ou em qualquer outro lugar do mundo que ele possa estar.   Sem fios, sem alto-falantes, sem nada (aparentemente). Você não precisa nem gritar, pode falar baixinho mesmo que tudo bem, sua voz chegará lá de qualquer maneira.   Não me atreverei a tentar explicar em detalhes como um telefone celular funciona. A ideia principal neste texto, como sempre faço nesta coluna, é simplesmente chamar a atenção para as coisas incríveis da ciência e da tecnologia que estão à nossa volta, ou até dentro dos nossos corpos, mas que muitas vezes estamos tão acostumados a elas que perdemos a capacidade de admirá-las.   Em termos de tecnologia, o celular é um ótimo exemplo disso, tal qual a fotografia digital, que mencionei na semana passada. (Imagine, então, um telefone celular com câmera digital! O seu amigo no Tibet não só consegue ouvir a sua voz da Avenida Paulista como pode ver fotos e vídeos das compras que você fez por lá, num piscar de olhos.)   Pergunto: como é que a sua voz chega da Avenida Paulista até o Monte Everest? Mais do que isso: como é que ela chega exatamente ao celular do seu amigo que está escalando a montanha sem se perder no meio do caminho? Como é que ela sabe onde o seu amigo está para começo de conversa? E se o seu amigo estiver no meio de uma daquelas ruas supermovimentadas de Tokyo ou Nova York, como é que a sua voz vai cair exatamente no celular dele, e não em qualquer outro das centenas ou milhares de celulares que estão em volta dele?   No caso de uma ligação por telefone fixo, a "mágica" é um pouco mais óbvia, ainda que não menos impressionante. Sua voz é transformada num sinal elétrico (ou luminoso, se for via fibra ótica), que é transmitido via cabo para um outro telefone na outra ponta da linha, que "traduz" esse sinal elétrico de volta para voz. Simples, né?   Já no caso do telefone celular, sua voz é transformada em um sinal de rádio, que viaja como uma onda eletromagnética pelo ar até uma antena receptora. De lá o sinal é retransmitido para outra antena, outra antena, outra antena, outra antena e assim por diante, até chegar no telefone para o qual você discou. Se o seu amigo estiver mesmo no Tibet, ou em Tóquio ou em qualquer outro lugar mais distante, o sinal ainda por cima terá de ser arremessado ao espaço e retransmitido via satélite, de volta para a Terra. O sistema de telefonia sabe onde cada telefone está porque os aparelhos se comunicam continuamente com a rede, informando-a se "estou aqui" ou se "estou ali".   Mais incrível ainda é que tudo acontece tão rápido que, apesar de tudo isso, você ainda pode conversar com alguém que está no Tibet como se ele estivesse sentado ao seu lado, a poucos centímetros de distância. Claro que existe um certo "delay" na transmissão do sinal, mas é geralmente tão pequeno que você nem percebe. A voz simplesmente sai da sua boca aqui e aparece instantaneamente na orelha do seu amigo ali.   Sem querer soar repetitivo, mas não posso deixar de citar mais uma vez o grande Arthur C. Clarke, que disse: "Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de mágica." Pense nisso a próxima vez que falar ao celular.

19 de fevereiro de 2009 | 15h47

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.