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Fenômeno observado há 345 anos era colisão de estrelas, diz estudo

Pesquisadores descobriram que explosão registrada por astrônomos do século 17 era um raro e violento choque entre estrelas

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S. Paulo

23 Março 2015 | 18h54

Em 1670, astrônomos europeus registraram um fenômeno intrigante: uma grande estrela surgiu no céu e desapareceu algumas vezes, antes de sumir definitivamente dois anos depois. Os cientistas modernos acreditavam que se tratava de uma nova - uma explosão de uma estrela anã branca em um sistema de duas estrelas. Mas uma nova pesquisa mostra que o evento do século 17 foi algo bem mais raro: uma violenta colisão de duas estrelas. A nova observação, realizada com o radiotelescópio Apex, no Chile, teve seus resultados publicados nesta segunda-feira, 23, na revista Nature.

O fenômeno foi espetacular o suficiente para ser observado a olho nu há 345 anos, mas os restos da colisão ficaram tão esmaecidos que só com um poderoso radiotelescópio - capaz de captar ondas de comprimento submilimétricos - foi possível desvendar o enigmático acontecimento.

"Por muitos anos pensava-se que esse objeto era uma nova, mas quanto mais o estudávamos, menos ela se parecia com uma nova normal - nem com qualquer outro tipo de explosão estelar conhecido", disse o autor principal do estudo, Tomasz Kaminski, do Instituto Max Planck de Radioastronomia (Alemanha).

A explosão foi descoberta no dia 20 de junho de 1670, pelo monge cartuxo Père Dom Voiture Anthelme, em Dijon, na França. Pouco mais de um mês depois, o fenômeno foi registrado independentemente também pelo astrônomo Johannes Hevelius - o pai da cartografia lunar -, em Danzig, atualmente na Polônia. 

O brilho da suposta estrela decaiu até outubro, mas se intensificou novamente no início de 1671, chegando à máxima magnitude em abril, quando foi observada por Giovanni Cassini, antes de esmaecer novamente no meio do ano. Hevelius ainda registrou um novo brilho entre março e maio de 1672, quando desapareceu completamente. 

Durante o século 20, cientistas descobriram que a maior parte das novas podiam ser explicadas pela colisão explosiva de duas estrelas que formam um sistema binário. Mas a suposta nova, conhecida a partir dos registros detalhados dos astrônomos do século 17, não se encaixava nesse modelo e permaneceu um mistério. 

Mesmo com telescópios cada vez mais potentes, acreditou-se por muito tempo que o fenômeno não havia deixado traços no céu. Só em 1982 cientistas encontraram uma pálida nebulosa no local descrito e a registraram como os restos da suposta supernova, batizada de Nova Vulpeculae 1670. Até agora, ela era considerada a nova mais antiga e mais apagada já registrada.

"Agora sondamos a área com comprimentos de onda submilimétricos e de rádio. Descobrimos que os arredores do material remanescente são banhados em um gás frio rico em moléculas, com uma composição química muito incomum", disse Kaminski. 

Descobrindo a composição química do gás, os cientistas conseguiram produzir um retrato detalhado da área, o que permitiu avaliar de onde veio o material. A equipe descobriu que a massa do material frio era grande demais para ser produto de uma explosão de nova. A conclusão é que se tratava de uma colisão entre duas estrelas - um cataclismo mais brilhante que uma nova, mas bem menos que uma supernova, que é um corpo celeste formado pela explosão de uma estrela.

"Há eventos muito raros em que uma estrela explode depois de se fundir com outra estrela, despejando no espaço material do interior estelar, eventualmente deixando para trás apenas pálidos resquícios em um ambiente frio, rico em moléculas e poeira. A Nova Vulpeculae 1670 se encaixa quase exatamente nesse perfil de colisão estelar", afirmou Kaminski. 

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