REUTERS/Ognen Teofilovski
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Fernando Reinach
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Fezes e poder

Após o parto da rainha, as operárias ficam sensíveis aos sons produzidos pelos filhotes

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2018 | 03h00

Circulando por túneis cavados no deserto de Etiópia, Somália e Quênia, vive o animal que eu considero o bicho mais feio do planeta (procure naked-mole rat na internet). O Heterocephalus glaber é um roedor de 10 centímetros, cor rosa, sem pelo, praticamente cego. Ele vive no escuro, em um emaranhado de túneis que cava com os incisivos superiores. Essas presas, que atravessam o lábio, servem de picaretas para cavar e se proteger dos invasores de túnel (cobras). Nos túneis, ele é ágil, andando para frente e para trás com a mesma velocidade, o que é impressionante. Um ratinho realmente asqueroso que se alimenta das raízes que encontra no subsolo.

Apesar disso, ele vem sendo muito estudado, e as razões são fáceis de entender. É extremamente longevo para seu tamanho. Envelhece muito lentamente, chegando a viver 30 anos (um desejo de toda a humanidade). E praticamente nunca tem câncer (outro desejo da humanidade), não sente dor (terceiro desejo da humanidade), vive com pouco oxigênio e resiste bem à falta de ar e ao frio (que inveja).

Além disso, é um dos únicos mamíferos que possui uma organização social semelhante às abelhas (também um desejo de certas ideologias). Cada colônia, que chega a ter até 300 indivíduos, é dominada por uma fêmea (equivalente à abelha rainha), que é a única a reproduzir. Meia dúzia de machos são seus parceiros sexuais (equivalente aos zangões). Todos os outros machos e fêmeas não têm vida sexual e vivem para executar os trabalhos de manutenção, coleta de comida, cuidado dos filhotes e defesa da colônia (o equivalente às tarefas das abelhas operárias). Igualdade social e liberdade sexual pode esquecer: são todos estéreis e obedientes. 

Nas abelhas, essa organização social é determinada geneticamente e por meio de um conjunto de moléculas que atua como hormônio, definindo o papel de cada um na colmeia. Mas como essa estratificação social rígida é mantida nesse mamífero? A novidade é que agora foi descoberta a maneira como a rainha obriga as operárias a atender às necessidades dos seus filhotes. 

Em colônias mantidas em laboratório, os cientistas observaram que as operárias, logo após o parto da rainha, ficam sensíveis aos sons produzidos pelos filhotes. Quando um filhote chora, as operárias vão buscá-lo e o levam para a rainha amamentar. Filhotes colocados no ninho quando a rainha não está grávida não provocam nas operárias esse comportamento maternal. Medindo a quantidade de hormônio feminino (estradiol) na rainha e nas operárias foi possível demonstrar que, a medida que a rainha progride na gestação, a quantidade de hormônio aumenta em seu sangue e também no das operárias. O problema é que as operárias não produzem hormônio feminino. Isso levou os cientistas a se perguntar como o hormônio chega ao sangue das operárias. Medindo a quantidade de hormônio nas fezes da rainha durante a gravidez, eles descobriram que as fezes não somente continham hormônio, mas que a quantidade aumenta durante a gravidez. Por outro lado, já era sabido que as operárias comem as fezes da rainha (são coprófagas). Daí veio a ideia de que talvez o hormônio encontrado no sangue das operárias tivesse sua origem nas fezes da rainha.

Essa hipótese foi confirmada de várias maneiras. Primeiro os cientistas colocaram hormônio nas fezes da rainha quando ela não estava grávida e descobriram que, assim, conseguiam fazer com que as operárias se preocupassem com os filhotes. Em outro experimento, eles substituíam as fezes da rainha grávida por fezes de outra rainha não grávida. Quando as operárias comiam essas fezes sem hormônio, apesar da rainha dar à luz os filhotes, as operárias não ligavam a mínima para o choro deles, não mostrando comportamento maternal.

A conclusão desses estudos é que a rainha produz fezes com hormônio feminino durante a gravidez e esse hormônio, ingerido pelas operárias, faz com que elas passem a se preocupar com os filhotes recém-nascidos da rainha. Ou seja, a rainha controla o comportamento das operárias transferindo hormônio feminino a elas pelas fezes.

Esse mecanismo pode parecer repugnante para nós, mas funciona perfeitamente entre esses ratos e garante que os filhotes sejam bem cuidados por operárias assexuais, as transformando em mães exemplares e garantindo a sobrevivência da colônia. Eu só espero que essa descoberta não inspire mulheres a adicionar estradiol na comida dos maridos.

MAIS INFORMAÇÕES: RESPONSES TO PUP VOCALIZATIONS IN SUBORDINATE NAKED MOLE-RATS ARE INDUCED BY ESTRADIOL INGESTED THROUGH COPROPHAGY OF QUEEN’S FECES. PROC. NATL. ACAD. SCI. HTTPS://DOI.ORG/10.1073/PNAS.1720530115 (2018)

*É BIÓLOGO

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