FHC diz que vai "passar o pires" em Johannesburgo

O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou hoje que irá "passar o pires" na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentado para obter recursos para a preservação de Amazônia e da Mata Atlântica . "Já que é fundamental para a humanidade, que os ricos ajudem a pagar uma parte do ônus", cobrou.Atualmente, 2,5% do território brasileiro já foram convertidos em unidade de proteção integral e 5% em unidade de conservação. É possível avançar mais. Porém, alerta o presidente, isso custa dinheiro. "Vamos aproveitar lá em Johannesburgo para passar o pires e pedir que nos ajudem a manter alguma coisa que é fundamental não só para os brasileiros, mas também para a humanidade."O governo brasileiro já negocia com o Banco Mundial, o GEF (banco alemão) e o WWF (Fundo Mundial para a Natureza) apoio para o projeto Áreas Protegidas na Amazônia (Arpa). Fernando Henrique anunciou ainda que fechará com a Alemanha um acordo para implantação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Este mecanismo, previsto no protocolo de Kyoto, permitirá a um país abater parte da sua cota de redução de emissão de gases do efeito estufa se investir em projetos de reflorestamento ou de mudanças na matriz energética. A iniciativa faz parte de um movimento do Brasil para tentar reforçar o isolamento dos Estados Unidos na Rio + 10, que rejeitam o protocolo.O presidente irá brigar em Johannesburgo para manter o espírito do Rio 92, a conferência mundial de meio ambiente que sedimentou preocupação com a promoção do desenvolvimento ecônomico compartilhada com a preservação da biodiversidade. "Não estamos dispostos a reabrir questões que foram solucionadas já na Conferência de Rio-92. Agora, é momento de construir parcerias globais e insistir com os líderes mundiais a manter esta direção. "Não vamos a Johannesburgo para dar um passo atrás", garantiu. Ele insiste, por exemplo, na manutenção do conceito de responsabilidades comuns de toda humanidade, porém diferenciadas. "A responsabilidade é a mesma, mas os custos devem ser divididos de forma inversamente proporcional aos danos causados ao meio ambiente."No último encontro preparatório da Rio+10, os países desenvolvidos ainda ameaçavam minimizar a discussão sobre o meio ambiente, centrando foco da reunião na questão da pobreza. Fernando Henrique sabe não ser possível pensar em desenvolvimento sustentável sem discutir medidas de redução da pobreza. Mas não pode ser predominante no debate. "Evidentemente os padrões de consumo e produção que são adotados até hoje não podem continuar, terão de ser mudados não só porque constituem instrumento de reprodução da pobreza", diz o presidente, lamentando que enquanto milhões consomem abaixo do mínimo necessário, outros consomem muito acima.Para o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, a tragédia das enchentes na Europa reforçará a defesa de compromissos com o meio ambiente na conferência Rio +10. Lafer considera o caso traumático das enchentes na Europa como exemplo de que questões ambientais afetam a vida das pessoas. "As enchentes não são apenas ato de Deus, mas resultado do manejo da natureza e dos seus recursos", afirmou.

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