Fim do fórum de mudanças climáticas alarma especialistas

A denúncia sobre a desativação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, feita na segunda-feira pelo Estado, causou críticas e grande preocupação entre especialistas no País. ?O assunto é da mais alta importância para o futuro do planeta e, deve-se ressaltar, países em desenvolvimento como o Brasil são os mais vulneráveis às projetadas mudanças?, afirmou Carlos Nobre, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP).Criado em 2000, o fórum reúne representantes dos governos federal, estaduais e municipais, empresas, cientistas, ambientalistas e organizações da sociedade para definir medidas que vão desde a prevenção a catástrofes causadas pelas mudanças climáticas ? ciclones e enchentes, por exemplo ? até incentivos fiscais a projetos que reduzem a emissão de poluentes. Presidido pelo presidente da República, o fórum não foi mais convocado desde a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, e ninguém no atual governo se responsabiliza por ele.?Esperemos que este governo entenda a importância da questão e a necessidade de não ficar somente intra-muros, tornando o fórum novamente ativo e lhe dando as condições operacionais para atuar?, disse Nobre, que é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em mensagem enviada dos Estados Unidos, o membro do IPCC lembrou que ?no fórum estão (estavam?) representados todos os setores da sociedade?, o que foi feito justamente para ?trazer a questão das mudanças climáticas a um saudável debate democrático?, incluindo o interesse da população, que antes era tratado como ?marginal?.OmissãoCoordenador-adjunto do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP e membro do Observatório do Clima, Mario Monzoni lamentou a falta de liderança de Lula, fruto de ?desarticulação ou desinteresse? em relação ao tema. ?Antes do 11 de Setembro, em Davos os líderes mundiais elegeram as mudanças climáticas como principal assunto a ser tratado neste século?, comentou. ?Depois do terrorismo, o tema continua sendo o mais importante, mas este governo não tem dado o devido tratamento.?Segundo Monzoni, sem a coordenação geral do governo federal o fórum não se viabiliza. ?É o governo o ator que discute com a ONU, é o governo que deve articular as discussões sobre o MDL (sistema de compensações a projetos que reduzem as causas do efeito estufa) com o setor privado, e a omissão do governo paralisa as coisas?, observou.Propostas do BrasilO secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, José Goldemberg, disse que a desarticulação do fórum vai fragilizar a posição do Brasil em conferências internacionais sobre o meio ambiente. ?Na conferência de Joanesburgo, em 2002 (Rio+10), o Brasil teve posições fortes e respeitadas, e o foi o fórum que promoveu aqui uma pré-conferência em que foram formuladas estas proposições brasileiras?, lembrou. ?No mês passado, em Bonn (Alemanha), o Brasil foi à conferência de energias renováveis sem discutir suas posições com a sociedade, e despertou muitas queixas.?Goldemberg se refere à polêmica proposta levada pela ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef, de incluir usinas hidrelétricas entre os projetos classificados como geradores de energia renovável. ?A idéia não causou nenhum entusiasmo e poucos delegados manifestaram apoio, como os de Uganda, por exemplo.?Para o secretário, o fato de o fórum ter sido criado durante o governo FHC não justifica o fato de o governo petista tê-lo deixado num ?buraco negro?, como agora. ?O fórum não é partidário e não é órgão da burocracia. É da sociedade, é institucional?, afirmou.

Agencia Estado,

22 de junho de 2004 | 14h30

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