Fiocruz atribuiu a falha na tradução experimentos com cobaias humanas

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) atribuiu nesta quarta a realização de um experimento ilegal com ribeirinhos do Amapá a uma falha na tradução do projeto de um estudo sobre a dinâmica da transmissão da malária, feita por um pesquisador holandês que era professor visitante da Universidade de São Paulo (USP). A instituição negou que o projeto estivesse usando sistematicamente cobaias humanas, mas admitiu que, pelo menos uma vez, em junho de 2003, alguns dos doze moradores selecionados em três comunidades para a pesquisa se deixaram picar por mosquitos selecionados por pesquisadores para que os insetos se alimentassem do sangue deles.Segundo a epidemiologista da Fiocruz Mércia Arruda, que analisa os resultados da pesquisa, uma frase do texto original em inglês do projeto previa o procedimento, permitido em alguns países, mas proibido pela legislação brasileira. Ao traduzi-lo para o português, a frase foi suprimida pelo pesquisador holandês Jaco Voorham, que era professor - adjunto visitante da USP e foi encarregado da tradução, por ser incompatível com a legislação brasileira. Porém, o coordenador do projeto, o pesquisador Robert Zimmerman, da Universidade da Flórida, baseou-se na versão em inglês para realizar a experiência em 2003.Segundo Mércia, alertado por pesquisadores da USP de que o procedimento era ilegal, Zimmerman abortou o experimento imediatamente. A pesquisadora não foi informada na época porque ficou hospitalizada por quase um ano com um edema cerebral e não foi substituída como representante da Fiocruz na pesquisa. Ela afirmou que desconhecia a versão em inglês, mas apenas a tradução aprovada pelos conselhos de ética da Fiocruz e da Universidade de São Paulo (USP), parceiras da Universidade da Flórida, e finalmente pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) em 2002.Chama a atenção, no entanto, o termo de responsabilidade, com carimbo da Universidade da Flórida, assinado pelos que se submeteram à experiência. Ele também foi traduzido para o português pelo pesquisador holandês, que repõe o item que ele mesmo teria retirado da versão em português do projeto original. Em um dos tópicos do documento assinado pelos ribeirinhos reaparece a previsão de que eles deveriam alimentar cerca de 100 mosquitos no braço ou perna para o estudo duas vezes durante 2003. Voorham, que já tinha participado de pesquisas semelhantes no Suriname, voltou para a Holanda ainda no início do projeto.A Fiocruz não descarta que tenha havido má-fé dos pesquisadores estrangeiros envolvidos, mas quer a apuração do caso antes de tirar conclusões. Afinal, o financiamento da pesquisa não vem de ONGs, mas do respeitado Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos Estados Unidos. "Não vamos descartar nenhuma possibilidade que foi levantada pelo Ministério Público, pelo Senado e pelas autoridades competentes. O projeto que enviamos ao Conep é técnico e correto. Tudo o que foi realizado diferente do que está nele nós vamos exigir investigação a fundo e ajudar nisso", disse Silvio Valle, coordenador dos cursos de Biossegurança da Fiocruz, que falou pela instituição.Valle e Mércia afirmaram que a Fiocruz desconhecia a versão do projeto em inglês e o termo de responsabilidade. A epidemiologista descartou a suspeita de biopirataria, já que nenhum material, segundo ela, foi enviado ao exterior.

Agencia Estado,

21 de dezembro de 2005 | 19h51

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