Florestas primárias caminham para a extinção

As florestas primárias, que ainda cobrem boa parte da superfície terrestre, continuam sendo degradadas devido a atividades econômicas insustentáveis. No ritmo atual de destruição, os 40% ainda intactos estarão perdidos nos próximos 20 anos. Esta é a principal conclusão do World Resources Institute (WRI), que divulgou, hoje (3/4), em Washington, seis relatórios do seu Programa Global Forest Watch. Os dados referem-se às florestas da Rússia, Indonésia, Chile, Venezuela, América do Norte e África Central. Juntas, elas correspondem a 50% das florestas primárias existentes.Os relatórios baseiam-se na análise de imagens de satélite e mapas, com validação de estudos de campo, produzidos nos últimos dois anos. O WRI conta com 75 instituições parceiras em 8 países, no âmbito deste programa. ?Conforme examinamos as vastas extensões de florestas, que julgávamos intactas, vimos que hoje já estão cortadas por estradas, mineração e concessões madeireiras, apesar das copas das árvores continuarem lá?, observa Jonathan Lash, presidente do WRI . Uma das maiores surpresas foi o estado de conservação das florestas russas. Este é o primeiro atlas com base em dados de satélite, abrangendo toda a região até agora tida como uma das áreas mais selvagens do planeta. Nele, a taiga aparece como uma colcha de retalhos, misturando áreas de floresta primária com vegetação degradada e clareiras abertas pela exploração madeireira. Segundo relatório coordenado por Dmitry Dobrynin, apenas 26% do total permanece intocado, somando 289 milhões de hectares sem sinais de infraestrutura ou atividades humanas. Uma das maiores ameaças, além da exploração madeireira, são os incêndios criminosos. Devido às condições específicas de solo e clima, um único incêndio em florestas russas pode durar meses até se extinguir. Do total de florestas originais, apenas 5% está protegido na condição de parques e reservas nacionais.Na América do Norte, 90% dos fragmentos de florestas temperadas superiores a 200 km2 concentram-se no Alasca e Canadá. Na parte continental dos Estados Unidos, apenas 6% das florestas estão razoavelmente preservadas, sobretudo nos estados de Idaho, Montana, Washington, Califórnia, Wyoming e Minnesota. E somente 17% são estritamente ou moderamente protegidas em parques e reservas, sendo que, na maior parte dos casos, tratam-se de áreas federais. E estas pode perder o status de ?área livre de estradas e atividade madeireira? se for suspensa a condição legal criada durante a administração Clinton, atualmente em processo de revisão pelo governo Bush.?Estamos caminhando rapidamente para um mundo onde as florestas primárias estarão confinadas somente às ilhas legalmente protegidas, cercadas de áreas comercialmente manejadas por madeireiros ou extrativistas?, diz Dirk Bryant, co-diretor do Global Forest Watch. ?A saúde das florestas do planeta depende de como vamos gerenciar e proteger estas áreas remanescentes?.Na África Central, a segunda maior extensão contínua de florestas (depois da Amazônia) está 50% comprometida pelas concessões para exploração madeireira e faltam planos integrados de manejo para controlar o avanço das motosserras. O problema se agrava com o trânsito de caçadores, que aproveitam as estradas dos madeireiros e as falhas na fiscalização para agir livremente, sobretudo em Camarões. Na Indonésia, também preocupa o descontrole das madeireiras, cujas atividades ilegais correspondem a 70% do volume comercializado. Pelo menos 40% das matas originais foram derrubadas nos últimos 50 anos. O ritmo de desmatamento vem se acelerando desde 1996, sendo atualmente estimado em 2 milhões de hectares anuais. Estima-se que ainda restam 98 milhões de hectares em pé. O problema é o mesmo na Venezuela, acrescido da mineração, que também vem abrindo frentes de desmatamento. O controle governamental é baixíssimo e as áreas protegidas, mesmo apenas no papel, correspondem a menos de 10% da área original de florestas.No Chile, as maiores pressões sobre as florestas de araucária e alerce (a segunda espécie de árvore mais antiga do planeta, depois das sequóias) são a agricultura e o reflorestamento com espécies exóticas. As maiores extensões de florestas intactas estão no extremo sul do país, protegidas apenas pelo isolamento, rigores do clima e declives que inviabilizam o corte. Pelo menos metade das florestas costeiras já foi derrubada, apesar de sua importância em termos de produtividade e biodiversidade.

Agencia Estado,

03 de abril de 2002 | 16h12

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