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‘Foi inesperado’, diz cientista da Unesp que ajudou a detectar ondas

Pesquisador dirigiu um dos grupos brasileiros que colaboraram para observação das ondas gravitacionais previstas por Albert Einstein

Entrevista com

Riccardo Sturani

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2016 | 03h00

Embora a maioria dos físicos teóricos acreditasse que as ondas gravitacionais seriam detectadas, quase ninguém imaginava que a descoberta viria tão cedo, de acordo com o físico italiano Riccardo Sturani, do Instituto de Pesquisa Fundamental da América do Sul, localizado na Unesp, em São Paulo. Sturani dirigiu um dos grupos brasileiros que colaboraram com o Ligo. 

Qual é a principal vitória científica relacionada à observação das ondas gravitacionais?

O mais importante é que não se trata apenas da descoberta de um novo objeto astrofísico, mas sim da descoberta de um novo mensageiro. O experimento nos deu acesso a mensagens que sempre foram enviadas, mas que, antes, não éramos capazes de ouvir.

Por que foi tão difícil detectar essas ondas?

É um tipo de onda que não está no espectro eletromagnético - por isso, elas são invisíveis para as tecnologias convencionais. Elas são algo que interage com todas as matérias, mas de um jeito extremamente frágil. Ao distorcer o espaço-tempo, elas provocam uma variação mínima na extensão da matéria e por isso precisávamos de “réguas” muito precisas, a fim de monitorar essas variações.

Que novas descobertas poderão ser feitas agora?

Como conseguimos “ouvir” objetos que não exibem ondas eletromagnéticas, temos a esperança de explorar diferentes sistemas que não emitem esse tipo de onda. Mas a esperança maior é descobrir algo inesperado. O mais excitante é que talvez possamos encontrar coisas que nem mesmo tínhamos previsto, como sistemas totalmente diversos dos que são conhecidos.

Quais foram os principais desafios para comprovar a previsão feita por Einstein há cem anos?

Os principais desafios eram técnicos. Para construir o observatório, foi preciso, por exemplo, desenvolver espelhos com superfícies totalmente idênticas e sem imperfeições. 

Como foi a participação do seu grupo no projeto?

Trabalhamos na modelagem e análise dos dados de sinais obtidos pelo experimento. Há três anos, não havia modelos analíticos como os que temos hoje. Esses avanços foram conquistados graças ao desenvolvimento da pesquisa em cálculo analítico e em cálculos numéricos relacionados à Relatividade Geral. Meu grupo também desenvolveu softwares de modelagem.

Vocês esperavam que as ondas gravitacionais fossem detectadas em 2015?

Foi algo verdadeiramente inesperado. Até ganhei uma caixa de vinhos de um colega: apostei que a detecção seria feita antes de 2017. A maioria dos cientistas não acreditava que a descoberta viria tão cedo e eu era considerado excessivamente otimista.

O seu grupo continuará nessa linha de pesquisas?

Sim, continuaremos a trabalhar na colaboração com o Ligo. O mais divertido ainda está por vir. Vamos tentar definir os valores do spin dos buracos negros. Vamos testar mais sistemas de estrelas com massa maior que a do Sol, vamos saber mais sobre como a matéria é composta nas galáxia e o que ocorre no fim da vida de uma estrela. 

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