Fornada de clones

Nas últimas semanas, temos assistido a um espetáculo familiar: cientistas tentando tirar uns aos outros da corrida rumo a algo que o restante da sociedade considera além do razoável. Neste caso, eles estão competindo para produzir o primeiro clone de ser humano do mundo. Há poucos anos, tal disputa teria parecido absurda, mas agora três grupos distintos dizem ter clones em produção.Severino Antinori, especialista italiano em fertilização, diz que seu clone será o primeiro a nascer. Antinori, que ficou famoso em 1994 por ajudar uma mulher de 62 anos a engravidar, implantando um óvulo fertilizado de um doador no seu útero, diz que tem uma gravidez por clonagem em andamento em um país não revelado. Segundo ele, o clone é um menino que deve nascer no início de janeiro.Panayiotis Michael Zavos, de Kentucky, antes parceiro de Antinori e agora seu inimigo figadal, diz não acreditar no médico italiano e que, de qualquer forma, está trabalhando em uma coisa ainda melhor. Zavos, que é embriologista, diz que coletou células de sete pessoas que querem ser clonadas e, na primeira quinzena de janeiro, inserirá os núcleos das células em óvulos humanos doados, dos quais os núcleos foram removidos. Ele prometeu que, diferentemente de seu rival, oferecerá prova de DNA de que cada um dos bebês nascidos de sua experiência é uma réplica genética do pai. E para acrescentar um pouco de tempero à questão, há os Raelianos, membros de um culto religioso que acredita que os primeiros seres humanos foram clonados por alienígenas espaciais há 25 mil anos. Com isso, assumiram a clonagem humana como uma missão sagrada. Segundo a cientista-chefe deles, Brigitte Boisselier, os raelianos agora têm cinco gravidezes por clonagem em andamento, com o primeiro bebê devendo nascer ainda este mês.Essas notícias, é claro, trazem à tona todo o tipo de questões éticas, morais, religiosas e sociais sobre se devemos ousar permitir tal passo. Portanto, será importante nos darmos conta de que já assistimos a esse filme antes.Um dos primeiros passos para o aclive escorregadio que nos trouxe até aqui foi dado há uma geração, quando os cientistas desenvolveram a técnica da fertilização in vitro. Na época, os opositores avisaram que essa fertilização levaria à clonagem ? que, sem a capacidade de fertilizar óvulos humanos em uma placa de Petri e cultivá-los até o estágio em que estivessem prontos para serem implantados em um útero, a clonagem não seria possível.Portanto, este é o desenrolar sobre o qual fomos avisados há cerca de 30 anos e que parece estar prestes a acontecer. TemorUma diferença crucial entre aquela época e agora é que hoje estamos muito mais temerosos. Na década de 70, o maior medo era que a fertilização in vitro fracassasse, resultando em sofrimento e, possivelmente, em bebês grotescamente anormais. Atualmente, o maior temor em relação à clonagem é de que possa dar certo.Mesmo assim, é assustador verificar como muitos dos argumentos apresentados hoje contra a clonagem são ecos de argumentos contra a fertilização in vitro: que o início não natural da criança levaria a complicações genéticas que não poderíamos sequer imaginar; que tornar fértil um casal infértil dessa forma artificial era um ato de soberba, pelo qual o casal, os cientistas e a sociedade teriam de pagar; que foram necessárias centenas de tentativas com animais até o primeiro sucesso e que, portanto, qualquer pesquisa com seres humanos requereria centenas de fracassos; que centenas de embriões em potencial seriam descartados na pia do laboratório; que os animais experimentais nascidos dessa forma sofreram de anormalidade cromossômica ou envelhecimento prematuro ou de câncer, mesmo que parecessem normais ao nascer; que seria um terrível peso para uma criança nascer com todas as expectativas que os pais depositam em uma gravidez de alta tecnologia ? e também porque nasceriam com a inevitável impressão de que há algo bizarro, anormal ou vergonhoso na forma como vieram ao mundo. Alguns desses argumentos tinham validade: realmente houve muitos fracassos antes dos sucessos ? em seres humanos, como tinha ocorrido com os animais. Mas a maioria das previsões simplesmente não se concretizou.ÔnusO fato de ser um bebê de proveta nunca pareceu ser um ônus psicológico para uma criança, não depois que Louise Brown foi recebida com tal alegria em julho de 1978. E as experiências com animais acabaram antevendo pouco sobre a experiência humana, já que a reprodução em mamíferos varia significativamente de uma espécie para outra. (O espermatozóide de coelhos, por exemplo, precisa ser ativado por um tratamento especial em laboratório para que possa fertilizar óvulos de coelha, mas o espermatozóide humano não precisa de tal estímulo.) Talvez, então, as experiências com a clonagem de animais como a Dolly, a ovelha clonada que parece estar tendo um envelhecimento anormal, não possa nos dizer o que precisamos saber sobre a segurança da clonagem de seres humanos. Os argumentos morais e religiosos contra a clonagem também evocam o que algumas pessoas disseram sobre a fertilização in vitro há 30 anos. Algumas dos primeiros críticos da fertilização acreditavam que ela ameaçava o próprio tecido da civilização: casamento, fidelidade, a essência da família; nosso senso de quem somos e para aonde vamos; o que significa ser humano, conectado, normal, aceitável; idéias sobre o amor e sexo; a disposição de se render ao mais maravilhoso e inescrutável dos mistérios. Se se permitisse que a fertilização in vitro prosseguisse, disseram alguns críticos, todas esses fios seriam desentrelaçados. Agora podemos verificar que eles não se desentrelaçaram ? ou, até o ponto em que isso aconteceu, não foi por causa desse método de fertilização. Mesmo assim, alguns dos mesmos argumentos éticos estão sendo apresentados hoje contra a clonagem. A analogia é imperfeita, é claro, como são a maioria das analogias. A fertilização in vitro foi uma forma de dar à Mãe Natureza uma mão quando se tratava da concepção, enquanto a clonagem deixa a Mãe Natureza convencida do seu valor. Na fertilização in vitro, a natureza é imitada, não subvertida. A única coisa que muda é o lugar onde o óvulo e o espermatozóide se juntam. Depois disso, as coisas seguem da forma normal. Já a clonagem é uma questão mais complicada. Ela deixa de fora todo o motivo da reprodução sexual ? a mistura da herança de um pai e de uma mãe para formar uma nova vida, esplêndida e única. Em 2002, após o nascimento de quase meio milhão de bebês de proveta normais e muito amados em todo o mundo, podemos ver a relativa inofensividade da fertilização in vitro. Mas não parecia inofensivo na década de 70, quando não sabíamos que a história teria um final feliz. Realmente não sabemos, em 2002, qual será o final da história da clonagem humana ? para os clones nem para o resto de nós. Mas da mesma forma como nossa atitude coletiva em relação à fertilização in vitro deu uma guinada de 180 graus depois que os primeiros bebês de proveta mostraram ser normais, talvez haja uma evolução análoga na nossa atitude em relação às tecnologias genéticas e reprodutivas que hoje parecem muito estranhas. Não apenas a clonagem, mas também a manipulação de nossos destinos genéticos pela alteração de nossas células para tornar nossos filhos mais altos ou mais bonitos, por exemplo, ou a troca de genes com outros animais. Ao menos algumas das técnicas mais improváveis deste novo século podem eventualmente se transformar em lugar comum, a ponto de não implicar uma necessidade aparente de deliberação ou debate. Em última análise, algumas destas invenções genéticas podem se tornar, como ocorreu com a fertilização in vitro, apenas uma parte da paisagem no estranho território dos genomas, genes e da geração. Robin Marantz Henig é autor de ?The Monk in the Garden: The Lost and Found Genius of Gregor Mendel? (O Monge no Jardim: O Gênio Perdido e Encontrado de Gregor Mendel). Seu próximo livro, ?Pandora?s Baby?, é a história da pesquisa da fertilização in vitro. The New York Times

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.