Kennis & Kennis, MADRID SCIENTIFIC FILMS
Kennis & Kennis, MADRID SCIENTIFIC FILMS

Fósseis com mais de 400 mil anos revelam mais antigo Neanderthal

Novas tecnologias de análise de DNA indicam que 28 fósseis encontrados há 30 anos na Espanha eram de Neanderthais; espécie é pelo menos 30 mil anos mais antiga do que se pensava

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

14 Março 2016 | 17h47

O homem de Neanderthal (Homo neanderthalensis) chegou ao norte da Espanha há 430 mil anos, de acordo com um novo estudo feito com análise de DNA. O estudo, publicado nesta segunda-feira, 14, na revista Nature, indica que a presença dos Neanderthais na Europa pode ser pelo menos 30 mil anos mais antiga do que se imaginava.

O grupo de cientistas, sob coordenação de Matthias Meyer, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig (Alemanha), analisou o DNA isolado de hominídeos encontrados na caverna de Sima de los Huesos, na Espanha. 

Até agora, não estava clara a ligação entre os 28 fósseis de indivíduos encontrados no local e os hominídeos que viveram no fim do período Pleistoceno, como os Neanderthais ou os Denisovans. As duas espécies são consideradas "primas" bastante próximas.

Com o uso de uma tecnologia altamente sensível de isolamento de amostras e sequenciamento de genomas, os cientistas extraíram e analisaram o DNA nuclear de dois espécimes de Sima de los Huesos, além do DNA mitocondrial de um deles.

De acordo com Meyer, o DNA nuclear - que é herdado tanto do pai como da mãe - sobrevive em pouquíssima quantidade em fósseis tão antigos. Mas, graças às novas tecnologias, os pesquisadores obtiveram o suficiente para comparar os códigos genéticos de uma mulher Neanderthal e de uma mulher Denisovan.

O DNA nuclear mostra que os hominídeos da caverna espanhola pertencem à linhagem evolutiva do homem de Neanderthal e - ao contrário do que apontavam alguns estudos anteriores - têm relação mais próxima com essa espécie do que com os Denisovans. Por outro lado, para complicar o quebra-cabeças evolutivo, o DNA mitocondrial - que é herdado apenas da mãe - tem mais proximidade com os Denisovans.

Cuidado especial. Segundo Meyer, Sima de los Huesos é hoje o único sítio que não se encontra no permafrost - tipo de solo encontrado no Ártico, permanentemente coberto de gelo - em que se pode estudar sequências de DNA do médio Pleistoceno, isto é, mais antigos que 125 mil anos.

"A recuperação de uma pequena parte de um genoma nuclear de hominídeos de Sima de los Huesos não é apenas um resultado de nossos esforços contínuos para desenvolver tecnologias mais sensíveis para isolar amostras e sequenciar genomas. O nosso trabalho teria sido muito mais difícil sem um cuidado especial que foi tomado durante as escavações", disse Meyer.

"Nós esperamos por muitos anos que avanços nas técnicas de análise molecular pudessem um dia nos ajudar a investigar esse conjunto único de fósseis. Nós então removemos alguns espécimes com instrumentos higienizados e os deixamos envoltos em argila para minimizar as alterações que poderiam ocorrer após as escavações", disse Juan-Luis Arsuaga, da Universidade Complutense de Madri (Espanha), que liderou as escavações no local ao longo de 30 anos.

Segundo os autores, a descoberta indica que a divergência evolutiva entre Neanderthais e Denisovans ocorreu há mais de 430 mil anos. Isso contradiz a hipótese de que os fósseis de Sima de los Huesos pertenciam a outra espécie de hominídeo, o Homo heidelbergensis. Alguns cientistas suspeitavam que o Homo heidelbergensis pudesse ter dado origem tanto aos Neanderthais como ao Homo sapiens, há cerca de 400 mil anos.

"Se os primeiros Neanderthais viveram no norte da Espanha há 430 mil anos, temos que voltar mais no tempo para alcançar o ancestral comum de Neanderthais e Denisovans", afirmou Meyer.

Para os autores do estudo, os novos dados genéticos sugerem que a divergência entre Denisovans e Neanderthais pode ter ocorrido há cerca de 450 mil anos. Evidências fósseis e genéticas indicam que o homem de Neanderthal e o Homo sapiens divergiram de um ancestral comum há carca de 650 mil anos.

Os pesquisadores sugerem que os hominídeos que povoavam a Eurásia naquela época podem ter compartilhado um padrão de DNA mitocondrial observado, na caverna espanhola, em Nenaderthais e Denisovans asiáticos. Se isso ocorreu, os Neanderthais adquiriram uma nova forma de DNA mitocondrial misturando-se a humanos modernos ou aos seus ancestrais diretos da África em algum momento entre 430 mil e 100 mil anos atrás.

Outra possibilidade é que os Neanderthais tenham viajado da Ásia para a Europa há mais de 430 mil anos, levando com eles o DNA mitocondrial dos Denisovans. É possível, ainda, que descendentes híbridos dos primeiros Neanderthais e Denisovans tenham vivido em Sima de los Huesos, levando DNA mitocondrial Denisovan com eles.

"Precisamos de mais dados genéticos de Sima de los Huesos e de outros sítios paleontológicos dessa época para afinar esses cenários", disse Meyer.


Mais conteúdo sobre:
Neanderthal Paleontologia Denisovan Nature

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.