JOSE REIS / O IMPARCIAL
JOSE REIS / O IMPARCIAL

Fósseis de aves com dentes da época dos dinossauros são achados no interior de SP

Animais habitaram a região há 80 milhões de anos; ao menos três espécies podem ser inéditas na paleontologia mundial

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 03h00

SOROCABA - Fósseis de aves com dentes que habitaram a região há 80 milhões de anos, junto com os dinossauros, foram encontrados por uma equipe internacional de paleontólogos em plena área urbana de Presidente Prudente, no oeste do Estado de São Paulo. De acordo com o paleontólogo paulista William Nava, que integra a equipe, ao menos três espécies podem ser inéditas na paleontologia mundial. Já o pesquisador Luis Chiappe, do Museu de História Natural de Los Angeles, afirma que os achados têm importância para a ciência. “São raríssimos mundialmente os vestígios de aves tão pequenas, semelhantes às atuais, mas que viveram em período tão remoto”, disse.

Os últimos achados aconteceram na quinta-feira, 16, no Parque dos Girassóis, zona sul da cidade, próximo de um condomínio residencial. O local vem sendo escavado e pesquisado por Nava há 14 anos, por isso o sítio recebeu o nome de “William's Quarry” (pedreira do William) em sua homenagem. No total, ele já coletou mais de mil ossinhos de pequenas aves de um grupo extinto junto com os dinossauros, chamados Enantiornithes.

A grande maioria deles são ossos isolados, mas agora foram achados materiais apresentando articulação, como ossinhos da asa ou das pernas, e também da coluna vertebral. “Um dos mais importantes registros são algumas pré-maxilas dessas aves que apresentam dentes, o que indica que poderiam ser carnívoras, e outras que nos parecem não ter dentes, deixando os pesquisadores intrigados”, disse.

Conforme o paleontólogo, trata-se da primeira descoberta desse tipo na América do Sul e de espécies possivelmente inéditas. “Temos até o momento três espécies identificadas e já nomeadas, através de elementos ósseos articulados, que não formam um esqueleto, porém dão uma ideia aproximada do tamanho e outras características dessas aves. Comparadas com fósseis desse mesmo grupo de aves extintas, descobertas na Argentina e em outros países, as aves brasileiras apresentam diferenças no úmero e em outros ossos, indicando se tratar de espécies novas para o antigo continente Gondwana, porção de terras que, durante o cretáceo superior, reunia partes da Antártida, América do Sul, África, Índia e Austrália”, disse Nava.

Conforme o paleontólogo, os fósseis de aves estavam incrustados em uma rocha fina, que se alterna lateralmente com outra mais grossa, onde estavam dentes de dinossauro e de crocodilo. “As avezinhas estão preservadas porque ficaram depositadas numa lama fininha, há milhões de anos, sendo cobertas por outras camadas de lama fina.”

O pesquisador, que dirige o Museu de Paleontologia de Marília, disse que já havia encontrado em anos anteriores fósseis de aves nesse terreno e a partir da importância dessas descobertas ele conseguiu organizar a equipe internacional, que tem também paleontólogos do Museu de Ciências Naturais de Buenos Aires.

Uma parte da equipe já havia estado em Presidente Prudente em 2017, em outra etapa das escavações. “Com a vinda dos pesquisadores estrangeiros, além de novas escavações, estamos fazendo a preparação dos pequenos ossos para que se obtenha a maior quantidade possível de informações morfológicas.” As peças são levadas para o museu de Marília e fotografadas pela fotógrafa e ilustradora científica Stephanie Abramowicz, do museu de Los Angeles. O material é analisado no laboratório do museu americano.

Com a confirmação de que são espécies novas de aves primitivas, elas serão descritas e vão ganhar um nome científico. A equipe deve produzir artigos com a descrição desses fósseis para publicações especializadas. No sítio de Presidente Prudente também foram encontrados dentes de crocodilos e escamas de peixes, provavelmente do mesmo período, além de outros fósseis ainda não identificados.

Integram também a equipe o paleontólogo Agustin Martinelli, o técnico especialista Guilhermo Aguirrezaba e o estudante de doutorado Sebastian Rozadilla, do Museu Argentino de Ciências Naturais de Buenos Aires, e ainda Jonatan Kaluza, da área de Paleontologia da Fundação Félix de Azara, de Buenos Aires.

Parque

A prefeitura de Presidente Prudente pretende tombar a área, que pertence ao município, como sítio paleontológico. O prefeito Nelson Bugalho (PTB), que acompanhou o trabalho dos arqueólogos, determinou estudos para pedir o tombamento da área pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico. O objetivo, segundo ele, é garantir a preservação do sítio arqueológico e a continuidade das escavações que ajudarão no conhecimento científico mundial. “Nossa intenção é que, no futuro, este lugar se torne um parque paleontológico, recebendo visitas técnicas de estudantes e da comunidade.”

Presidente Prudente entrou no roteiro internacional das pesquisas paleontológicas com a descrição, em 2013, de uma nova espécie de dinossauros - o Brasilotitan nemophagus - a partir de fragmentos encontrados numa escavação conduzida pelo próprio Nava. Antes, em 2011, outro achado seu, restos de um lagarto do mesmo período, foi descrito como um Brasiliguana prudentis pela Academia Brasileira de Ciência.

Segundo o paleontólogo, no período do Cretáceo Superior, entre 65 e 80 milhões de anos, a região do atual oeste paulista seria uma planície alagadiça, de clima quente e seco, com uma área mais profunda, onde se depositavam os sedimentos mais finos. Os corpos de animais e aves acabaram sendo carreados para essa parte mais funda e foram cobertos pelas camadas finas de areia, tornando-se fósseis. “Todos os fósseis que achamos até agora ocorreram em placas de arenito, que são camadas de areia solidificadas ao longo de milhões de anos”, disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.