Fosséis revelam duas migrações para a América

Dois pesquisadores brasileiros publicam nesta terça-feira o maior estudo de fósseis já realizado sobre o povoamento das Américas.Análises morfológicas de 81 crânios do sítio arqueológico de Lagoa Santa, em Minas, confirmam a tese de que o continente foi ocupado por duas migrações de populações de morfologia distinta: a primeira, cerca de 14 mil anos atrás e a segunda, 3 mil anos depois.Entre os crânios estudados está a famosa Luzia, considerada o fóssil mais antigo das Américas - datado entre 11 mil e 11,5 mil anos. O que a torna parte de um grupo, em vez de um exemplar isolado - para a satisfação dos cientistas. Ela pertenceria à primeira migração, que atingiu a América do Sul 12 mil anos atrás."A Luzia era uma representante da população dela", diz o biólogo Mark Hubbe, que assina o trabalho com Walter Neves, ambos da Universidade de São Paulo (USP).Em dúvidaA teoria das duas migrações é defendida por Neves há mais de 15 anos, mas os resultados eram postos em dúvida por causa do pequeno número de fósseis analisados. Afinal, diziam os críticos, Luzia poderia ser apenas uma "aberração" morfológica da população.Mas não. "Nunca houve um trabalho com um número tão grande de crânios", afirma Hubbe. "Esse é o grande diferencial que dá credibilidade ao estudo."As análises morfológicas indicam que a aparência craniofacial dos primeiros americanos - aqueles que vieram na primeira migração pelo Estreito de Bering - era muito mais semelhante à dos atuais africanos e australianos do que à dos atuais asiáticos - que teriam originado a segunda migração.Os fósseis de Lagoa Santa possuem crânios estreitos e longos, com rostos projetados para a frente, órbitas oculares e narizes largos e baixos (características similares às dos negros africanos e aborígines australianos), enquanto os índios americanos atuais (descendentes da segunda migração) lembram mais os habitantes do nordeste asiático: crânio curto e largo, rosto achatado, órbitas e narizes altos e estreitos.Primeira geraçãoO que aconteceu, então, com os descendentes da primeira migração? Acreditava-se que haviam desaparecido totalmente, substituídos pelos asiáticos mais modernos. Mas trabalhos recentes indicam que pode ter havido alguma sobrevivência entre etnias indígenas atuais."Esse é o próximo passo", diz Hubbe. "Não sabemos exatamente o que aconteceu com eles."Os cientistas deixam claro que a origem africana ou australiana não implica uma travessia marítima: ambas as migrações teriam ocorrido pelo Estreito de Bering, onde, no último período glacial, havia uma enorme faixa de terra entre a Ásia e as Américas (atuais Rússia e Estados Unidos).Os crânios representam vários períodos de ocupação das cavernas de Lagoa Santa, ao norte de Belo Horizonte. A maioria tem entre 8 mil e 8,5 mil anos, mas alguns - como Luzia - têm mais do que isso.O fósseis foram coletados ao longo de mais de 150 anos, desde as primeiras escavações feitas por Peter Lund, em 1842. O estudo está publicado na revista PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos EUA.

Agencia Estado,

12 de dezembro de 2005 | 22h49

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