Amos Frumkin/ Hebrew University
Amos Frumkin/ Hebrew University

Fóssil indica local onde humanos e Neandertais se misturaram pela primeira vez

Crânio de 55 mil anos, encontrado em caverna de Israel, é a primeira prova de que o as duas espécies dividiam o mesmo espaço antes da chegada do Homo sapiens à Europa

Fabio Castro, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2015 | 17h44

Atualizado às 19h54

SÃO PAULO - Um grupo internacional de cientistas descobriu, em Israel, parte de um crânio que fornece a primeira prova de que humanos modernos viveram em uma mesma área que o homem de Neanderthal, indicando que as duas espécies podem ter se misturado há 55 mil anos. Já se sabia que os europeus modernos herdaram cerca de 4% de seus genes dos neandertais, o que significa que os dois grupos se misturaram em algum momento do passado - mas até agora não havia pistas sobre quando e onde isso aconteceu.  

A rara descoberta, publicada na edição de ontem da revista Nature, desafia a hipótese anterior de que as duas espécies teriam se encontrado há 45 mil anos em algum lugar da Europa. A nova pesquisa sugere que esse encontro aconteceu 10 mil anos antes, já que o crânio humano foi encontrado em uma região onde os neanderthais viviam periodicamente - provavelmente quando o avanço das geleiras sobre a Europa os forçavam a buscar áreas mais quentes. Esqueletos de neandertais da mesma idade já haviam sido descobertos em cavernas a menos de 50 quilômetros de onde foi encontrado o crânio humano.

"Já se suspeitava que o homem moderno e os neandertais estiveram no mesmo lugar ao mesmo tempo, mas não tínhamos nenhuma prova física disso. Agora temos, com esse novo crânio fossilizado", disse um dos autores do artigo, Bruce Latimer, da Universidade Case Western Reserve (Estados Unidos).

O estudo também fornece, segundo os autores do artigo, novas perspectivas sobre a teoria conhecida como "out of Africa", segundo a qual todos os habitantes do planeta descendem de um único grupo de Homo sapiens que teria deixado o continente africano há cerca de 2 mil gerações, entre 40 mil e 60 mil anos atrás. A caverna onde foi encontrado o crânio fica na única rota terrestre disponível para que humanos ancestrais viajassem da África para o Oriente Médio, Ásia e Europa. 

O crânio de 55 mil anos, sem o rosto, nem a mandíbula, foi encontrado na Caverna Manot, na Galiléia, norte de Israel. A caverna havia sido descoberta em 2008, por acaso, quando uma obra de engenharia danificou seu teto. Os pesquisadores descobriram, na época, que a entrada original da caverna havia sido bloqueada naturalmente há cerca de 30 mil anos. Entre 2010 e 2014, cinco temporadas de escavações foram realizadas na caverna.

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De acordo com os cientistas, o crânio é anatomicamente semelhante ao de africanos e europeus modernos, mas é diferente de outros crânios de humanos modernos da região do Levante, onde fica Israel. Para os autores, a descoberta representa a primeira evidência fóssil de que o Levante era ocupado, no fim do período paleolítico médio, não só por neandertais, mas também por humanos modernos.

O artigo sugere que o crânio pertencia a um membro de uma população que havia deixado a África recentemente para se estabelecer no Levante, no momento em que as condições haviam se tornado favoráveis, com um clima mais quente e úmido no norte do deserto do Saara e no Mediterrâneo.

Segundo Latimer, o crânio continha um cérebro relativamente pequeno, de 1100 mililitros, enquanto o dos humanos modernos tem cerca de 1400 mililitros. O fóssil era de um adulto, mas os cientistas não sabem se era de um homem ou de uma mulher, já que o crânio não possui o cume da sobrancelha - o principal marcador de diferenças de gênero.

O estudo antropológico do crânio foi liderado por Israel Hershkovitz, da Universidade de Tel Aviv e as escavações foram coordenadas pelos arqueólogos Ofer Marder, da Universidade Ben-Gurion e Omry Barzilai, da Autoridade de Antiguidades de Israel.

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