Fungos podem baratear tratos de hortaliças em estufas

A infestação de culturas por pequenos vermes, de cerca de 1 mm, genericamente conhecidos como nematóides, não é seletiva. Das sazonais hortaliças a plantios perenes, como o café, cerca de 2 mil espécies de plantas cultivadas são afetadas, com níveis de perda que podem chegar a 100%. Os remédios químicos nematicidas oferecem risco de contaminação, são caros e de baixa eficiência, visto que os vermes penetram nas raízes, folhas ou sementes das plantas, e ali se encapsulam, aproveitando um tipo de deformação da própria planta, chamado de galha. A presença dos nematóides danifica as raízes e prejudica o crescimento das plantas.A alternativa dos agricultores, para combater a praga, é recorrer a plantas repelentes ou fazer rotação de culturas e outros tratos culturais, já que os nematóides vivem no solo e são disseminados com facilidade, num simples transplante de mudas.Mas uma nova opção de tratamento preventivo deve se tornar disponível, em breve, a partir dos resultados de pesquisas realizadas na Universidade Estadual Paulista (Unesp) campus Jaboticabal. O sistema prevê manejo integrado, a partir de uma análise do tipo de nematóide infestante e do uso de diferentes tipos de fungos para controlar os vermes. O custo chega a ser 10 vezes inferior à aplicação de nematicidas químicos, com a vantagem de não oferecer risco à saúde nem ao meio ambiente.Uma equipe coordenada pelo especialista em nematóides, Jaime Maia dos Santos, trabalha há 9 anos na seleção de fungos, que se alimentam dos nematóides. "Selecionamos 5 espécies diversas de fungos nematófagos de armadilha, quer dizer, são fungos que vivem no solo e armam uns anéis ou redes, onde o nematóide é capturado, quando passa por aquele espaço", explica Maia dos Santos. "O fungo então enlaça o nematóide e penetra no verme, alimentando-se dele".Os fungos são reproduzidos em laboratório, num substrato à base de arroz, que deve ser misturado à terra antes do plantio ou do transplante de mudas. "Incluímos no substrato nematóides de vida livre, que não atacam plantas, porque eles estimulam a proliferação dos fungos no solo", acrescenta o pesquisador, que também supervisiona o Centro de Manejo Integrado de Pragas da Unesp. "Estamos montando uma estrutura de prestação de serviços, que nos permita analisar qual nematóide está causando problemas, para depois fornecer o fungo específico para aquele tratamento". Ele explica que várias espécies de verme produzem os mesmos sintomas e a diferenciação só pode ser feita ao microscópio, fator limitante para a venda livre dos fungos nematófagos.Vários pós-graduandos já passaram pela equipe, que atualmente conta com dois mestrandos e dois doutorandos sob orientação de Maia dos Santos, com bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A maior parte dos recursos de custeio veio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), totalizando R$ 85 mil. O grupo pretende solicitar recursos adicionais para mais 4 anos, para investir na seleção de fungos e montagem de um sistema de atendimento a cultivos em ambientes fechados (estufas). Com isso, visam sobretudo o grande número de hortas urbanas ou da periferia das grandes cidades, que não têm recursos para investir em nematicidas químicos e lidam com alimentos de consumo direto, para os quais o manejo integrado é mais recomendável, por evitar contaminação.

Agencia Estado,

09 de setembro de 2003 | 16h21

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