Fusão de órgãos de astronomia divide cientistas

A decisão do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) de fundir o Observatório Nacional (ON) e o Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) do Rio divide os cientistas. As duas instituições atuam em paralelo, a primeira na pesquisa básica de astronomia e disciplinas correlatas (inclusive o estabelecimento da hora oficial) e a segunda preservando a história dessas ciências.Para apressar a fusão, que deve acontecer até novembro, o MCT nomeou um diretor para os dois órgãos, o professor Waldmir Pirró e Longo. Os funcionários o consideram um interventor e tentam ganhar tempo para renegociar a questão em 2003, com o governo a ser eleito em outubro. Longo explica que a absorção retoma a situação anterior a 1985, quando o Museu foi criado pelo astrônomo Ronaldo Rogério Freitas Mourão, para preservar a memória do Observatório, criado em 1827 por dom Pedro I. ?O patrimônio do ON tornou-se o acervo do Mast, que passou a ocupar o prédio centenário de São Cristóvão, enquanto o Observatório foi para um anexo. Quem faz pesquisa ficou no primeiro e quem trabalha com história e divulgação foi para o segundo?, diz.Segundo ele, a atual fusão foi recomendada pela comissão que estudou saídas para a carência de recursos das duas instituições. "As atividades de ambas serão preservadas e assim como os cargos e salários dos quase 300 funcionários?, disse.A Associação de Funcionários do Conselho Nacional de Pesquisa (Ascon) discorda. Segundo o presidente Francisco Pereira da Silva, a fusão foi uma das seis soluções apontadas pela comissão e ressalta que, fatalmente, uma instituição vai se sobrepor à outra. ?São atividades incompatíveis. Na falta de recursos, a preservação da história vai para o segundo plano?, afirma. Ele estranha o MTC manifeste intenção de criar um museu de ciências num futuro próximo. ?Por que criar um órgão com a finalidade do que se está extinguindo??Freiras Mourão, que fundou o Mast mas desde o fim dos anos 80 é só pesquisador titular, dá razão aos dois lados. Ele reconhece a preservação da memória será preterida pela prática da ciência, mas não vê outra saída. ?A fusão salva o museu, que está à míngua, do fechamento. As diretorias que me sucederam ampliaram o leque de disciplinas que o desviaram de suas funções?, afirma. ?Criei um museu de astronomia e o transformaram num de ciências brasileiras, necessário, mas sem condições de se abrigar lá. E o Mast se fechou dentro dos muros, perdeu o contato com a cidade, como era o objetivo.?A Ascon discorda e, com dados numéricos, prova que o Mast cumpre a função. Recebe 40 mil visitantes por ano, guarda 20 arquivos de cientistas e instituições, desenvolve pesquisas na área de história das ciências, tem um acervo de 1.200 peças e mantém pelo menos seis exposições permanentes.Por enquanto, o impasse prossegue. Longo trabalha para cumprir o cronograma do MCT e os funcionários tentam mobilizar a comunidade científica, com manifestos e abaixo-assinados pela internet. Tinham uma audiência nesta quinta-feira com Longo que a cancelou a agora aguardam novo episódio da disputa.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.