Futuros ministros divergem quanto ao uso dos transgênicos

O Brasil deverá assumir uma posição de cautela em relação ao uso de sementes transgênicas na agricultura, afirmou nesta segunda-feira a futura ministra do Meio Ambiente, senadora Marina Silva. Horas depois de o futuro ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, haver afirmado em entrevista à Rede Globo que o uso das sementes geneticamente modificadas poderia ajudar a resolver o problema da fome e que o País tem de adotar uma posição sobre o tema, Marina evitou entrar em polêmica: "O novo governo não terá uma política ideológica contra os transgênicos. Mas manteremos uma posição de cautela: eles devem ser liberados apenas quando a segurança de seu uso for comprovada."Desde antes da indicação formal para o Ministério, Rodrigues já havia destacado a necessidade de reavaliar o tema. O futuro ministro usa como argumento a perspectiva da falta de milho no mercado brasileiro no próximo ano. Para solucionar o problema, o milho teria de ser importado dos Estados Unidos ou da Argentina, países que cultivam o produto transgênico.Se a proibição do uso persistir, afirmou o futuro ministro, a importação não poderá ser feita e não haverá ração para gado de leite, suínos e frangos."Vamos procurar uma solução comum", afirmou Marina. "Não vamos agir como uma ministra do Meio Ambiente que não pensa na agricultura ou um ministro da Agricultura que não pensa no meio ambiente", disse. "Vamos manter a linha do ?nós? e não do ?eu?", completou.Marina afirmou que o governo deve incentivar as pesquisas científicas no País, para se certificar de que o uso de sementes geneticamente modificadas não traz risco ao meio ambiente. Para isso, diz, não podem ser usados apenas trabalhos internacionais. "Vivemos um País que apresenta uma megadiversidade. É aqui que precisamos avaliar o impacto do uso dessas sementes."E só com base em estudos nacionais, diz, que uma decisão pode ser tomada. Caso tais pesquisas indiquem segurança, Marina diz não haver motivos para não liberá-las. Enquanto a resposta não vem, o uso deve ser proibido. Para solucionar o problema do abastecimento de milho, a futura ministra arrisca algumas sugestões. Entre elas, comprar da Argentina 400 mil toneladas produzidas com sementes não-transgênicas e também uma compra casada com a China. "Entraríamos com a soja e eles, com o milho não-transgênico."A senadora aposta ainda na "safrinha", produção de milho plantado logo depois da colheita de soja, prevista para fevereiro. "Certamente isso será suficiente." Ela acrescenta, ainda, ser preciso adotar políticas de estoque para evitar futuros desabastecimentos.Embora seja favorável à liberação do uso de sementes transgênicas depois de estudos que comprovem a sua segurança, o presidente da comissão de grãos, fibras e oleaginosas da Confederação Nacional de Agricultura, Macel Caixeta, afirma que a decisão não precisa vir às pressas.Atribuindo o problema do desabastecimento à falta de uma política para o setor, Caixeta ressalta que a fase pior já passou. "Não está faltando tanto milho assim, como se diz. Em muitos locais, os estoques estão em ordem. O problema é o preço com comprador." Para ele, a liberação dos transgênicos no País traria apenas um benefício aos produtores. "Nossos produtos poderiam ser mais valorizados no mercado exterior."

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